ENTREVISTA - DANIEL BALDACIN

Silvia Marques - Fevereiro / 2004



Nome Completo: Daniel Baldacin

Data de Nascimento: 6 / 5 / 1977

Naturalidade: São Paulo - SP

Altura: 1,90 m

Peso: 97 kg

Posição: Pivô

Equipe: Metodista/São Bernardo



Baldacin é um dos pré-convocados para as Olimpíadas de Atenas


AH - Onde e quando você começou sua carreira, e qual foi sua trajetória até chegar à Metodista?

Baldacin -
Comecei em 1989, aos 12 anos, no E.C.Banespa, ainda na categoria mirim. Em 1990 fui para o E.C.Sírio, onde fiquei até 1994. No ano seguinte, com o fim da equipe de handebol do Sírio, vim para a Metodista, a convite do técnico Alberto Rigolo. Joguei um ano na categoria Juvenil, depois passei para a equipe Júnior, e finalmente para a Adulta.

AH - Quando foi sua primeira convocação para a Seleção Brasileira e quais foram os principais campeonatos dos quais participou?

Baldacin -
Em 1996 fui convocado pela primeira vez para a Seleção Júnior. Participei de treinamentos, mas não cheguei a ir para nenhum campeonato naquele ano. Em 1997, participei do Campeonato Pan-Americano e do Mundial da Turquia, ainda na categoria Júnior. Em 1998, fui convocado pela primeira vez para a equipe Adulta, e desde então estive em alguns torneios, em outros não... O que é normal, já que nem sempre o atleta está na sua melhor forma física para compor a Seleção. Entre os campeonatos que participei com a Seleção Adulta, estão o Mundial da França, em 2001, o Mundial de Portugal, em 2003 e os Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo, em 2003.

AH - Como foi para você a conquista do ouro e da vaga Olímpica nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo?

Baldacin -
A vitória no Pan foi uma coisa inesquecível e inexplicável. Foi a realização de um sonho de criança, eu sempre quis estar em uma Seleção Brasileira de nível Olímpico e tive a oportunidade de fazer parte do grupo que conquistou pela primeira vez o ouro para o Brasil e a vaga para as Olimpíadas. Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido, muito bom mesmo!


Ao lado de Marcão e Alê, Baldacin comemora
a conquista do ouro no Pan (Foto: COB)


AH - E como você percebe a repercussão do Pan? Acredita que este é o início de uma reestruturação no handebol brasileiro?

Baldacin -
Bom, finalmente a imprensa abriu os olhos para o nosso esporte. Agora as portas estão se abrindo para nós em termos de mídia e de patrocínio. Estamos com um apoio muito bom da Petrobras e o planejamento de treinos para as Olimpíadas está fantástico. A Confederação Brasileira está se estruturando para acompanhar esse desenvolvimento e está investindo os seus recursos nas categorias de base para que o Brasil tenha, em 2008 ou 2012, uma equipe competitiva, que vá efetivamente brigar por medalha. Esse pensamento da Confederação, de um planejamento futuro, é até mais importante do que a nossa preparação agora. A preparação para Atenas é importantíssima, mas a essa altura não irá mudar muito o que cada um joga. Agora, lapidar os novos talentos desde pequenos fará com que eles tenham muito mais potencial e sejam muito melhores do que nós. A atual Seleção será lembrada apenas como um marco na história, como a primeira equipe forte, que ganhou um Pan-Americano. Acredito que estamos fazendo a transição entre o amadorismo e o profissionalismo.

AH - Você acha possível profissionalizar o handebol, em termos de estrutura, patrocínio, tudo que é necessário para manter atletas profissionais?

Baldacin -
Eu acho, mas acredito que isso ainda demorará algum tempo porque não depende apenas da Confederação, depende também dos clubes se estruturarem para isso e terem a visão de tratar o esporte como um negócio que precisa ser bem administrado e um produto que precisa ser vendido. Mas creio que, com o tempo, aparecerão novas equipes e esse aspecto melhorará bastante. As condições têm melhorado muito com o trabalho que vem sendo realizado pela Confederação e pelo técnico Alberto Rigolo. O apoio financeiro tem crescido e temos contado com uma boa estrutura com relação a uniforme, hotel, etc... O fato da ESPN transmitir jogos de handebol também é uma evolução importante, porque precisamos de espaço na mídia para a divulgação do nosso esporte. Ainda há muito por fazer, mas as coisas estão caminhando, já conquistamos um resultado expressivo, que foi a conquista do Pan, e com o tempo virão resultados ainda melhores.

AH - Quais são as suas expectativas para as Olimpíadas de Atenas e como você está se preparando para tentar ser um dos 15 convocados?

Baldacin -
Eu estou me preparando da melhor maneira possível para tentar conquistar a oportunidade de realizar o sonho de ir para as Olimpíadas, que ainda é incerto, já que estamos ainda num grupo de 25 jogadores, 22 aqui e 3 na Europa, dos quais somente 15 irão. Tem muita coisa para acontecer ainda, mas estou me preparando fisicamente, psicologicamente e me dedicando ao máximo. Não tenho dúvidas de que o Brasil irá melhorar as duas últimas colocações nas Olimpíadas, 12º e 11º lugares. O grupo está muito bom, muito forte, e sem dúvida trará um resultado melhor que os anteriores. É claro que não podemos nos iludir e pensar que dá para buscar uma medalha de ouro porque realmente as equipes européias estão um pouco à nossa frente, mas isso não quer dizer que não iremos brigar de igual para igual, como fizemos no Mundial de Portugal. Vamos ir para cima e, se derem mole, vamos ganhar mesmo e pronto! Será assim, cada dia matando um leão e, se deixarem, vamos ganhar e ir cada vez mais longe. É para isso que estamos nos preparando, psicologicamente, fisicamente e tecnicamente.

AH - Você concorda com alguns críticos, que afirmam que a Seleção Masculina tem poucas chances de vitória em Atenas por ter poucos atletas atuando na Europa? Acha impossível jogar bem dentro do Brasil?

Baldacin -
Não é que é impossível, mas até certo ponto eles até têm razão porque o esporte praticado aqui é diferente do esporte praticado lá. Na Europa, o handebol é profissionalizado, então o atleta cresce em uma estrutura bem organizada, é bem preparado e vive do esporte, o que faz com que lá seja realmente muito melhor. Não que o handebol no Brasil não seja bom, está melhorando muito, mas ter atletas na Europa ajuda porque o jogo é um pouco diferente. Mas a nossa preparação está muito boa, vamos fazer amistosos contra equipes fortíssimas, aqui no Brasil e na Europa, e esse intercâmbio será muito importante para nós. Com relação a ter atletas no exterior, acho que quanto mais brasileiros forem para a Europa se desenvolver e aprender será melhor. Esses atletas têm que ir, ficar um tempo e voltar, trazendo melhorias. Na minha opinião, aqueles que vão para a Europa devem voltar trazendo essas informações para contribuir com o esporte brasileiro, que os ajudou a chegar lá. Acho que seria uma troca justa.

AH - E você, pretende ir? Você já foi sondado e, se realmente for para Atenas, estará numa vitrine e convites deverão surgir.

Baldacin -
Irá depender muito da proposta... Eu tenho vontade de ir, mas também tenho outros objetivos profissionais que poderão pesar na minha decisão de ir ou não para o exterior. O mercado lá está aberto para os brasileiros, praticamente todos os atletas da Seleção têm contatos na Europa, aqueles que não têm é porque não se interessaram, portanto depende realmente da vontade de ir para lá tentar a sorte.


Em ação pela Seleção Brasileira (Foto: COB)


AH - Quais são as dificuldades que o Brasil encontra frente aos europeus? Esses problemas são físicos, técnicos ou táticos?

Baldacin -
Na verdade é o conjunto... Apesar de que fisicamente estamos bem, melhoramos muito nos últimos anos. Não há muita diferença tática também, portanto a maior dificuldade é técnica mesmo, eles têm melhor desenvolvimento porque disputam campeonatos muito fortes o ano todo, enquanto nós não, a Seleção mais forte que costumamos enfrentar é a Argentina, que também não tem resultados expressivos no contexto mundial. Mas esse trabalho de intercâmbio feito pela Confederação tem sido importante, pois através disso estamos aprendendo e nos aperfeiçoando.

AH - Falando agora sobre a Metodista/São Bernardo. Como foram as últimas temporadas para a equipe? Quais são as expectativas para 2004?

Baldacin -
2002 foi um ano complicado em termos de resultado... Chegamos às finais de todos os campeonatos internos que participamos e conquistamos somente um título, o da Liga Nacional, ficando com o vice-campeonato em todos os outros. Por outro lado, foi satisfatório porque chegamos a todas essas finais com a equipe desfalcada. De 22 atletas, chegamos a ter 6 machucados, o que sobrecarregou e comprometeu o rendimento dos demais. Nosso melhor resultado em 2002 foi a Liga Nacional. Fizemos uma boa campanha e vencemos o Imes/São Caetano na final, que é também uma equipe muito forte. Em 2003, disputamos cinco competições, vencemos três (Taça Brasil, Campeonato Paulista e Jogos Abertos do Interior) e fomos vice nas outras duas (Jogos Regionais e Liga Nacional). Faltou realmente muito pouco para ganharmos a Liga pela sétima vez, mas, por méritos do São Caetano, isso não foi possível. No entanto, a campanha de 2003 foi muito boa, mostramos que estamos no caminho certo e que o handebol da Metodista continua sendo um dos melhores do Brasil. Em 2004, pretendemos dar continuidade ao nosso trabalho, melhorando aquilo que for possível. Será um ano difícil, por ser um ano Olímpico, mas as expectativas são ótimas.

AH - A Metodista esteve nas duas edições do Campeonato Mundial de Clubes: na Áustria, em 1997 e no Qatar, em 2002. Como você avalia a mais recente participação da equipe?

Baldacin -
Eu considero a nossa participação excelente! Na primeira edição do campeonato, ficamos em 6º lugar. Já em 2002, conseguimos a 3ª colocação, uma melhora muito significativa. Foi a primeira medalha conquistada por um clube brasileiro num campeonato mundial, um resultado importante para o Brasil e que significou muito para nós.


Na Metodista desde 1995, Baldacin participou da maior parte
das conquistas da equipe (Foto: Divulgação Metodista/São Bernardo)


AH - Que conselho você daria para quem está começando agora no handebol? É um caminho difícil?

Baldacin -
Não se pode negar que é difícil ser atleta no Brasil. Para se ter algum retorno financeiro são necessários vários anos de treino e investimento, é preciso ter muita persistência e buscar seus objetivos. Mas vale a pena essa luta, não apenas pelos resultados práticos, mas principalmente pelo crescimento pessoal que o esporte proporciona. É claro que os títulos são importantes, mas também cresci muito como ser humano e como homem através do esporte. Meu conselho para a criança ou o jovem que quer ser atleta é que tenha muita determinação e batalhe pelo seu sonho.

AH - E exige muito da sua vida pessoal?

Baldacin -
Com certeza, exige muito mesmo... É difícil manter relacionamentos, cultivar amizades, até a vida familiar é prejudicada. Temos que viajar muito, abrir mão de muitas coisas, é preciso ter dedicação e equilíbrio mental para lidar com tudo isso.

AH - O atleta consegue viver do esporte no Brasil?

Baldacin -
Depende. Existem modalidades que dão um bom retorno financeiro, como o futebol, o vôlei... Já no handebol a história é um pouco diferente. Não temos o mesmo espaço na mídia e o mesmo patrocínio. São poucos os atletas que vivem só do handebol, a maior parte trabalha ou estuda paralelamente.

AH - Você tem alguma ocupação paralela?

Baldacin -
Atualmente não estou trabalhando porque não estava conseguindo conciliar os treinos com o trabalho. Acabei tendo que fazer uma opção, e não podia abrir mão de jogar justamente agora que estou na minha melhor fase. Sou formado em Administração de Empresas e trabalhei durante um ano e meio no setor administrativo da Universidade Metodista, mas estava impossível conciliar o esporte com a minha profissão, por serem áreas muito diferentes. Optei por parar de trabalhar e me dedicar mais ao handebol, e o meu rendimento melhorou bastante depois disso.


Durante treino da Seleção


AH - Você pretende ter uma carreira longa, como o SB, por exemplo, que continua jogando aos 38 anos? Quais os seus planos a médio prazo?

Baldacin -
Eu não sei se com essa idade terei as condições físicas que tem o SB! No caso dele, a vida proporcionou as condições para que ele continuasse em plena forma e sendo um excelente jogador durante todo esse tempo. Acredito que vá chegar um ponto em que eu decida parar de jogar e partir para alguma outra área relacionada ao handebol, como supervisor, coordenador, algo nesse sentido. Não acredito que eu venha a me tornar técnico porque minha área é Administração, não Educação Física. Atualmente estou fazendo pós-graduação em Marketing Esportivo na Universidade Gama Filho, que irá me capacitar justamente para a área de administração e apoio ao esporte.

AH - Seu pai, Santo Baldacin, foi também um atleta importante no handebol brasileiro. Qual a influência dele na sua decisão de se tornar jogador e na sua carreira?

Baldacin -
Ele sempre me incentivou a praticar esportes, mas, na verdade, acho que ele até preferia que eu escolhesse outra modalidade. Cheguei a praticar natação, basquete, tênis, judô... Mas a minha vontade sempre foi realmente o handebol. A partir do momento que tomei minha decisão, meu pai me ajudou, me abriu várias portas, me dava algumas dicas, mas ele sempre procurou se distanciar um pouco e deixar que eu tomasse minhas próprias decisões e construísse minha carreira.

AH - Quais as mudanças que você percebe no handebol brasileiro ao longo dos anos, comparando sua experiência com a do seu pai?

Baldacin -
Na época em que meu pai jogava, ele não tinha o apoio que temos hoje, treinava bem menos, o handebol era absolutamente amador. Atualmente estamos buscando aperfeiçoamento e aprendendo muito com o handebol europeu. Pretendemos realmente conseguir profissionalizar o esporte.

AH - Na sua opinião, como o esporte pode ser usado como ferramenta para promover mudanças sociais no nosso país?

Baldacin -
Existem projetos muito bons nesse sentido. Um que está próximo de mim e que posso citar como exemplo é a iniciativa da Metodista, que criou uma escolinha de esportes que atende cerca de mil crianças carentes. É muito importante dar a essas crianças um sonho, uma perspectiva... Mostrar a elas que são capazes e que existem possibilidades. O objetivo do projeto não é formar mil atletas, mas sim manter essas crianças na escola, voltadas para o esporte, longe das ruas e das drogas. Esse tipo de trabalho deveria ser realizado por outros clubes e empresas porque não podemos esperar tudo do Governo. Acho que o esporte pode trazer esperança a muitas crianças no Brasil.


Baldacin marca o sueco Wislander, durante o Mundial de Portugal/2003


AH - Existe muita polêmica envolvendo o uso de doping no esporte. Há quem acredite que atletas de todas as modalidades façam uso de substâncias controladas para obter resultados. Qual é a sua opinião a respeito?

Baldacin -
Eu posso falar por mim, sou totalmente contra! Não uso, é claro, e não acredito que seja necessário ou recomendável usar substâncias proibidas e que prejudicam a saúde. Existem outras formas de se atingir um bom rendimento. Na Metodista temos um fisiologista e uma nutricionista que nos orientam sobre o que comer, quando comer, e como distribuir os treinos e exercícios de maneira correta. O que pode ser necessário para o atleta, mas que não tem nada a ver com doping, é uma suplementação alimentar. Muitos atletas usam suplementos alimentares porque o esporte muitas vezes consome mais energia do que conseguimos obter através dos alimentos.

AH - Quais suplementos alimentares você utiliza?

Baldacin -
Eu consigo suprir todas as minhas necessidades através de uma boa alimentação, não uso aminoácido, proteína, nenhum suplemento. A única coisa que costumo utilizar, mas que também não tenho tomado ultimamente, é maltodextrina. Há alguns anos atrás fiz uma experiência com creatina por uns dois meses, mas não me adaptei. A creatina retém líquidos e fez com que o meu peso aumentasse um pouco. Me senti pior, com menos velocidade.

AH - Você já chegou a medir sua perda de peso durante uma partida?

Baldacin -
Eu já me pesei antes e depois de um jogo e a perda foi de 2 kg e 1/2. Acredito que jogando uma partida inteira a média seja mais ou menos essa, de 2 a 3 kg.


Contra o Egito, durante o Mundial de Portugal/2003


AH - Qual foi a vitória mais marcante da sua carreira?

Baldacin -
Foram várias marcantes, mas uma muito emocionante foi a final do Sul-Americano de 99, aqui em São Bernardo do Campo. O jogo foi contra a Argentina, e tínhamos perdido deles na fase classificatória. Ganhamos na prorrogação, foi uma vitória inesquecível...

AH - E a derrota?

Baldacin -
Foi para a própria Argentina, na final do Pan-Americano de Seleções, em julho de 2002, em Buenos Aires. Perdemos por um gol, que foi marcado faltando 3 segundos para o final do jogo, num tiro de 7 metros. Jogamos muito bem naquele dia e merecíamos aquela vitória. Também nos sentimos injustiçados porque fomos prejudicados por muitos erros de arbitragem.

AH - Sobre esse tabu que era vencer a Argentina... Qual foi o detalhe que fez com que o Brasil ficasse mais de três anos sem conseguir vencê-los?

Baldacin -
Era exatamente isso, detalhe... As duas equipes são muito parecidas, têm atletas de alto nível, e os jogos sempre foram definidos justamente nos detalhes. Jogamos sempre de igual pra igual, estamos no mesmo nível tanto fisicamente quanto tecnicamente. Acredito que nossa desvantagem era cometer mais erros durante as partidas.

AH - Para finalizar, deixe um recado para a torcida brasileira, que está acompanhando a trajetória do handebol rumo a Atenas.

Baldacin -
Torçam para o Brasil, apóiem a gente, não fiquem vendo apenas os pontos negativos. Realmente ainda é muito difícil, o nosso esporte está em ascensão, mas acreditem em nós e quem puder ajudar de alguma forma, tente ajudar, entre em contato com a Confederação, enfim, não apenas critique. Se for necessária a crítica, que seja feita de forma positiva, para melhorar o esporte.

AH - A equipe do Amigos do Handebol agradece e deseja muita sorte nesta preparação para as Olimpíadas!


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