ENTREVISTA - CHINA

Silvia Marques - Janeiro / 2004



Nome Completo: Winglitton Rocha Barros

Data de Nascimento: 22 / 6 / 1974

Naturalidade: São Luiz - MA

Altura: 1,90 m

Peso: 95 kg

Posição: Armador Esquerdo

Equipe: Metodista/São Bernardo



Durante treino da Seleção Brasileira (Foto: Reuters)


AH - De onde vem o apelido China?

China -
Eu fiz Kung-Fu durante seis anos, quando era pequeno. Meu irmão tinha o apelido de China e um amigo dele começou a me chamar de China também, até que pegou, porque eu estava sempre de branco, com um cabelo meu chinesinho...

AH - Onde e quando você começou a jogar?

China -
Comecei em 1985, no Colégio Santa Tereza, em São Luiz, nas aulas de Educação Física. Em 1991, fui chamado pelo Prof. Luiz Carlos Giacomini, que era então técnico do Chapecó e da Seleção Brasileira, para ir para Chapecó, e foi lá que aprendi a jogar de fato o handebol.

AH - Qual foi a sua trajetória? Por quais clubes passou ao longo da sua carreira?

China -
Joguei em Chapecó de 91 a 94. De lá fui para Caçador e Concórdia, ainda em Santa Catarina, e tive uma curta temporada em Santa Maria, RS. No início de 95 me transferi para a Metodista, onde joguei até 96. Em 97 fiquei um pouco afastado e em 98 joguei uma temporada por São Caetano. Em 2000 fui para o Vasco e joguei também dois campeonatos brasileiros pelo Moto Clube de São Luiz. Em 2001 fui para Londrina e em 2002 voltei para o São Caetano, onde fiquei até o final de 2003. No início agora de 2004 acertei com a Metodista.

AH - Como surgiu essa negociação com a Metodista? Por que decidiu mudar de equipe?

China -
Depois de ter ajudado o Imes/São Caetano a quebrar a hegemonia da Metodista, que é a equipe mais estruturada do Brasil, repensei e achei melhor ir para a equipe que oferece a melhor estrutura e dá condições de se desenvolver um bom trabalho, que permite ao atleta colocar em quadra o melhor rendimento possível. Apesar de ter muitos amigos no São Caetano, tenho também muito carinho pela Metodista, estava lá no início do trabalho e conheço bem a equipe.


China é um dos atletas pré-selecionados para as Olimpíadas de Atenas e o mais novo reforço da Metodista/São Bernardo


AH - E propostas do exterior? Você já recebeu alguma ou tem planos de ir para a Europa?

China -
Em 2002, passei dois meses na Alemanha, mas a transferência acabou não dando certo por alguns fatores: na época eu estava com um problema no ombro, tinha alguns assuntos de família aqui no Brasil e também surgiram alguns problemas com documentação, por isso acabei preferindo voltar. Atualmente, não tenho nenhuma proposta concreta, o que acontece é sempre aquele namoro entre brasileiros e clubes da Europa. Possibilidade havia de eu ir para lá, mas apesar da Europa ser o grande celeiro do handebol mundial, não me vejo mais jogando fora, a minha cara hoje é o handebol do Brasil e quero ter resultados aqui. Posso aprender sobre o handebol europeu através dos atletas que estão lá e trazem informações para nós e pretendo realizar o meu sonho que é me tornar técnico e realizar um trabalho com crianças e jovens.

AH - Quando foi a sua primeira convocação para a Seleção Brasileira?

China -
Foi em 1991, para a Seleção Júnior. Fui convocado pelo técnico Luiz Carlos Giacomini, que é responsável pela descoberta de grandes talentos, como Menta e Mineiro.

AH - E para a Seleção Adulta?

China -
Foi em 1993. Fiquei participando da Seleção até 96, fui para as Olimpíadas de Atlanta, e depois me afastei um pouco, foi uma época em que me desiludi um pouco com o esporte. Voltei em 98 e estou até hoje defendendo as cores do Brasil.

AH - Quais foram os principais campeonatos em que você esteve com a Seleção?

China -
Mundial da Islândia/95, Mundial do Egito/99, Mundial da França/2001, Olimpíadas de Atlanta/96, Jogos Pan-Americanos de Mar Del Plata/95, Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo/2003, além de vários campeonatos Pan-Americanos e Sul-Americanos.

AH - Como foi a sua experiência nas Olimpíadas de Atlanta? O seu sonho como atleta era as Olimpíadas?

China -
Todo atleta tem sonhos. O meu, na verdade, era jogar na Seleção Brasileira. Me lembro que, aos 13 anos de idade, no Colégio onde eu estudava, a freira perguntou o que cada um sonhava ser e a minha resposta foi justamente essa, que queria ser atleta de Seleção Brasileira de Handebol, defender o meu país, ouvir o hino, e acabei realizando isso. As Olimpíadas não eram muito o meu sonho, o meu sonho mesmo era subir no pódio!

AH - E as suas expectativas para Atenas? O Brasil tem jogadores excelentes na sua posição, inclusive o Bruno...

China -
Pois é, só tem fera! Infelizmente alguns serão cortados, mas eu vou estar junto, vou estar treinando e o meu objetivo é ajudar a equipe da melhor maneira possível. O Bruno é a nossa grande referência, tem um nível incontestável e o seu lugar está mais do que conquistado. As demais vagas serão disputadas, mas não existe essa coisa de competição, somos todos amigos. O que interessa para nós é ajudar a Seleção e ajudar o handebol a crescer. Quanto às expectativas do Brasil, é difícil objetivar o pódio, mas não é impossível, não... Eu discordo, inclusive, de muita gente que afirma que é utopia o Brasil sonhar com o pódio. É claro que para Atenas é muito difícil, mas de repente para 2008, se todos se engajarem, se as federações e clubes derem aos atletas condições de profissionalização, tenho certeza que o Brasil pode chegar à conquista de uma medalha Olímpica.


Na coletiva de imprensa que marcou o início da preparação para as Olimpíadas


AH - Além de jogar, você estuda ou trabalha?

China -
Estou cursando Educação Física. Pretendo me formar para futuramente me tornar técnico e educador. Eu fiz 2 anos de administração, 1 ano de jornalismo e 1 semestre de direito, mas agora finalmente estou na minha área e me identifiquei muito com o curso.

AH - Você mora em São Paulo ou no Maranhão?

China -
Moro em São Paulo. Apesar de eu ter dois filhos no Maranhão e minha mãe, que tem problemas de saúde, é complicado ir até lá devido à distância e os custos da viagem. Mas procuro ir sempre que posso para estar presente para os meus filhos.

AH - Você usa suplementação alimentar?

China -
Hoje em dia não uso mais nada. Já usei suplementação, creatina, mas resolvi abolir o uso de qualquer substância que possa provocar efeitos ainda desconhecidos pelos médicos. Me alimento bem, faço entre 5 e 6 refeições por dia, e procuro manter a disciplina, balancear as refeições, para ficar em forma.

AH - O que você pensa sobre a problemática do doping?

China -
Eu acho que o controle antidoping tem que ser feito com muita seriedade. Essa questão precisa ser aprofundada e estudada, e é preciso ser encontrada uma forma para que os atletas atinjam o seu melhor desempenho sem o uso de substâncias proibidas. É muito errado um atleta entrar numa competição limpo e ter que competir contra pessoas que usam doping.

AH - O que você diria para os atletas jovens, que muitas vezes têm, erradamente, a impressão de que o alto rendimento só é atingido através de doping?

China -
Muitas pessoas me perguntam se eu já usei algum tipo de doping, mas nunca usei nada, sempre tive o objetivo de chegar à Seleção Brasileira e consegui isso através de muito treinamento: acordava às 5 da manhã para correr, treinava sozinho de final de semana, assistia vídeos. Meu recado é que os atletas que estão iniciando devem ouvir os conselhos dos mais experientes, mas principalmente tomar suas atitudes conscientemente e ser felizes com elas.


China comemora gol marcado pela Seleção Brasileira (Foto: COB)


AH - Sobre o Pan de Santo Domingo: Como foi vencer a Argentina? Eles realmente entraram de salto alto, menosprezando o Brasil?

China -
Quando você vence um adversário várias vezes seguidas, é normal haver um relaxamento, de repente achar que não será tão difícil. Mas nós chegamos na competição muito engasgados, enquanto eles entraram muito tranqüilos. Chegamos tendo ainda muito o que mostrar, enquanto a Argentina não, eles já haviam atingido o máximo do rendimento deles, jogam aquilo e acabou. A nossa equipe se fechou e passou por cima dos obstáculos, da falta de estrutura, para se superar. Treinamos quase dois anos visando essa vaga Olímpica e provamos que, através de dedicação, trabalho e profissionalismo, é possível passar por cima das adversidades.

AH - O Brasil entrou muito mais forte do que eles esperavam...

China -
Ah, lógico! Trabalhamos muito a questão da ansiedade.

AH - Na prorrogação os argentinos pareciam muito mais nervosos que os brasileiros...

China -
Inclusive, teve um fato interessante. Na final em Winnipeg, o Bruno estava marcando o cubano Carlos Perez e falou, num determinado momento: "puxa, nós devíamos dividir a medalha", mas o cubano respondeu: "não, nós vamos ganhar". Em Santo Domingo, no final do 2º tempo normal, o Andreas Kogovsek passou por mim e disse exatamente a mesma coisa: "nós tínhamos que dividir o título" e eu respondi "não, quem vai ganhar somos nós". Coincidentemente, ele disse o mesmo para o Bruno e a resposta do Bruno foi igual à minha. Isso mostra que, assim como os cubanos em 99, nós entramos com cara de campeões, com equilíbrio, união, vontade, garra... Isso foi muito legal.

AH - E para o Pan de 2007... O que o Brasil pode esperar, na sua opinião?

China -
Cuba virá com um time redondo, eles estão treinando muito, melhorando muito e virão com uma equipe forte. Tem também a Argentina e poderão surgir surpresas, como o Canadá ou a Groenlândia. Acredito que em 2007 a competição será muito mais forte, não será um campeonato de um jogo só, como foi em 2003. Por isso chamo a atenção de todos nós, envolvidos com o handebol, para o fato de que teremos que correr atrás, aproveitar os frutos dos resultados que temos obtido e crescer, senão corremos o risco de ficar para trás. A Confederação precisa proporcionar a estrutura para darmos continuidade ao processo de crescimento que iniciamos e para que a nova geração, que conquistou um excelente 8º lugar no Mundial Júnior, prossiga com esse trabalho.


Final do Pan contra a Argentina (Foto: COB)


AH - Um dos problemas do handebol brasileiro é o nível dos campeonatos internos. As mesmas equipes sempre se revezam nas primeiras colocações, o que faz com que nossas ligas estejam longe de serem competitivas. O que você acha que deveria ser feito para se revolver isso?

China -
Acredito que o intercâmbio pode minimizar esse problema. Se jogadores, técnicos, dirigentes e árbitros forem para a Europa por alguns meses e voltarem para o Brasil trazendo conhecimentos adquiridos lá, haverá uma grande evolução. Não adianta irem apenas os atletas. Se os árbitros não forem, não conseguiremos pôr em prática o que aprendemos lá, e assim por diante. Todos têm que ir e vivenciar a realidade do handebol europeu, para aplicar os conhecimentos aqui.

AH - A forma encontrada pela Confederação para proporcionar intercâmbio é enviar a Seleção para torneios amistosos na Europa. Você acha que essas excursões dão resultado ou ainda é pouco?

China -
É preciso haver uma seqüência. Se essas séries de amistosos forem realizadas muitas vezes, é claro que haverá um crescimento enorme do nível técnico e tático, mas se esses amistosos forem realizados um mês antes de uma competição, contra equipes de 2ª, 3ª divisão, não adianta muito. Temos que fazer muitos jogos contra equipes fortes, que iremos encontrar em Mundiais e Olimpíadas.

AH - Fale um pouco sobre o patrocínio fechado com o Governo do Maranhão...

China -
Depois do resultado do Pan, consegui fechar uma parceria com o Governo do Estado do Maranhão. Não é exatamente um patrocínio, fiz alguns comerciais voltados para os jovens, campanhas antidrogas e divulguei também um projeto que o governo tem, o Bolsa Atleta, que tem por objetivo dar condições para que os jovens atletas se mantenham na escola e possam também jogar. Eles recebem uma ajuda de custo para que não tenham que abrir mão dos estudos nem do esporte. Fiquei muito feliz por poder ser parte disso e agradeço ao estado do Maranhão por essa oportunidade e pelo apoio. Tanto eu como todos os atletas merecemos isso.


Contra República Dominicana, no Pan de Santo Domingo (Foto:COB)


AH - Você de vez em quando aparece com o cabelo azul, verde e amarelo... É uma forma de comemoração, protesto, o quê?

China -
Sou meio rebelde mesmo... Eu tenho um senso crítico muito apurado, e encontro uma forma de me manifestar, de responder às coisas. Mas quando deixei o cabelo azul, foi uma homenagem ao azulão (time de futebol de São Caetano) e quando deixei verde e amarelo, foi uma homenagem ao Brasil.

AH - Você já tem uma perspectiva de quando deixará as quadras?

China -
Eu gostaria de jogar mais uns 10 anos, se a estrutura melhorasse. Senão, acredito que devo parar mais ou menos em 2008.

AH - Para terminar, deixe sua mensagem para os torcedores!

China -
Queria agradecer o pensamento positivo e a torcida para nós. Recebi e-mails do Brasil inteiro antes do Pan, me dando aquela força e muita energia positiva. Essa torcida e as homenagens que recebemos depois da vitória foram muito importantes. Agora vamos para Atenas, novamente com muita vontade, querendo crescer, e em 2007 vamos lutar por mais um título Pan-Americano, para darmos mais uma alegria ao nosso país, que sofre tanto.

AH - Obrigado pela sua contribuição para o site e boa sorte em 2004!


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