ENTREVISTA - PROFª IVONETE FAGUNDES
Silvia Marques - Novembro / 2003

Nome Completo: Ivonete Sartori Fagundes
Data de Nascimento: 3 / 4 / 1958
Naturalidade: Santo André - SP
Equipe: Metodista/Mesc/São Bernardo
Função: Técnica da equipe adulta feminina
AH - Qual foi a sua trajetória no handebol, onde e como começou sua carreira?
Ivonete - Como atleta, minha carreira foi muito curta, joguei muito pouco, mas como técnica minha carreira é bastante longa. Aos 18 anos eu já era técnica de uma equipe juvenil na cidade de Mauá. Eu havia jogado na equipe, e quando parei de jogar, fui convidada a continuar como técnica. De lá, vim para São Bernardo. Aqui, passei por vários clubes, todos da prefeitura, e também pelo Colégio Ábaco. Comecei a treinar equipes de competição em 1985, e estou no Mesc desde 97. Faço parte da Seleção Brasileira desde 98, comecei com a Cadete, em 99 fui para a Júnior, e no início de 2002 fui para a Seleção Adulta, como assistente técnica.
AH - Com que idade começou a jogar e qual era a sua posição?
Ivonete - Comecei com 12, 13 anos, com Jogos Escolares, e joguei até os 18 anos. Eu era armadora central.
AH - Sobre a Seleção: O Brasil era favorito isolado ao título. A equipe foi à Santo Domingo praticamente para cumpri tabela ou preparou-se para o Pan independentemente do nível das adversárias?
Ivonete - Nós saímos do Brasil sabendo do nosso favoritismo, em nenhum momento negamos isso, pois era muito claro e seria uma falsa modéstia dizer que não éramos favoritos. Toda a nossa preparação foi para o Pan-Americano, mas foi também visando o Mundial, pois sabíamos que no 2º semestre, com as atletas disputando a Liga Nacional, não haveria espaço no calendário para a Seleção. Usamos o 1º semestre para trabalhar para o Pan e para o Mundial. Quanto ao favoritismo, as meninas foram de um profissionalismo imenso porque é muito difícil para um atleta saber que pode jogar mal e ainda assim ganhar o jogo. Do 1º ao último jogo, elas com seriedade, comprometidas com os nossos objetivos. Costumo dizer que elas confirmaram o favoritismo, venceram e convenceram.
 Ivonete comemora ao lado das atletas a conquista do ouro no Pan (Foto: COB)
AH - Não fica difícil para o Brasil enfrentar adversários europeus tendo concorrentes fracos aqui na América?
Ivonete - Isso é uma pena, infelizmente nós crescemos e outras Seleções estacionaram. Acho que não podemos ficar jogando só aqui, a confederação já está nos proporcionando excursões para a Europa. No final de 2002, fomos para a Espanha, onde jogamos contra equipes de 1ª divisão, e este ano, disputamos um torneio amistoso na Hungria e na Eslováquia. Isso tem nos trazido muito amadurecimento, pois sabemos que na América não iremos mais aprender, temos que continuar saindo e aprendendo lá fora.
AH - Alguma equipe, pelo que você pôde avaliar durante o Pan, tem potencial para eventualmente tornar-se um adversário forte para o Brasil?
Ivonete - Eu gostei muito da equipe do Uruguai, foi a que mais exigiu de nós na parte defensiva. E a Argentina tem uma equipe bem jovem e com uma condição técnica que, com um trabalho a longo prazo, poderá se tornar mais competitiva. As equipes da República Dominicana, do México, são muito novas, o trabalho está começando e não dá ainda para avaliar se haverá continuidade nesse trabalho ou não.
AH - Houve realmente os problemas estruturais em Santo Domingo, conforme foi divulgado aqui? Que recordação ficou deste Pan-Americano?
Ivonete - Se houve, foi resolvido pelo COB, não foi sentido por nós. Uma das coisas que mais me impressionou foi a estrutura do COB, que resolveu todos os problemas e não deixou que chegasse até nós. Tivemos dificuldades com telefone nos primeiros dias, com a quadra, que ficava muito molhada em alguns horários, mas tudo isso foi contornado. A recordação que ficou foi realmente a vitória, participar de um Pan é muito emocionante, conviver com os seus ídolos na Vila, foi muito marcante, principalmente porque esta foi a primeira vez que estive em Jogos Pan-Americanos. E o grupo estava muito unido, foi inesquecível.
 Delegação brasileira de handebol feminino na Vila Pan-Americana (Foto: COB)
AH - E não haverá mais fases de treinamento antes do Mundial?
Ivonete - Não. Teremos alguns dias de descanso após a liga e nos reuniremos já para embarcar para a Europa. Devido à Liga Nacional, as meninas ficam comprometidas com os seus clubes. Vamos para o Mundial sem fases de treinamento porque o calendário do 2º semestre não permite. Em breve, faremos o planejamento para iniciar os treinamentos para as Olimpíadas.
AH - Não há alguma forma de se acompanhar as atletas ou fazer pelo menos algumas reuniões fora das fases de treinamento?
Ivonete - O que acontece é que o técnico da Seleção, Alexandre Schneider, é de Santa Catarina. Ele acompanha o desempenho das atletas pelos vídeos, através dos jogos que passam na televisão e, quando pode, vem a São Paulo. Quanto a reuniões, não fazemos, mas sempre mantenho contato com o Alexandre e passo para ele as condições das atletas que estão próximas de mim.
AH - Você acha que o calendário deveria ser repensado para proporcionar às Seleções as condições adequadas para atingir resultados internacionais mais expressivos?
Ivonete - Sim, acredito que precisamos adequar o nosso calendário ao da Federação Internacional para melhorar o nosso desempenho a nível mundial. Estamos indo para o Campeonato Mundial praticamente sem treinamento, com jogadoras em fim de temporada, enquanto as européias estão na sua melhor condição, em meio de temporada. São problemas que sempre existiram, o Brasil não vai bem em Mundiais e, na minha opinião, um dos fatores é justamente este.
AH - Qual será o objetivo da equipe na Croácia?
Ivonete - Nossa meta é chegar entre os dez primeiros colocados. Sabemos que será dificilíssimo, nossa chave é difícil e precisamos ficar em 3º no grupo para conseguirmos superar nossa classificações no Mundial de 2001, que foi o 12º lugar. Nosso objetivo é nos aproximar das equipes européias.
AH - E o Brasil não contará com algumas de suas principais jogadoras devido a contusões...
Ivonete - São grandes perdas, já não contamos com a Lucila nos Jogos Pan-Americanos, nossa capitã, tem grande importância no grupo tecnicamente e também como a líder que ela é. A Sandra, por tudo o que ela representa para o handebol brasileiro, já foi para o Pan porque é uma batalhadora, deveria ter operado antes , mas conversou e foi liberada pelo médico, adiando a cirurgia para depois do campeonato. Esperamos que sejam somente as duas...
AH - Como você avalia o desempenho do Brasil contra as européias nos amistosos realizados entre 2002 e 2003?
Ivonete - Foram muito positivos. Perdemos alguns jogos, empatamos outros, conseguimos também vitórias, contra a Romênia e a Hungria B. Estamos gradativamente diminuindo a distância, que era bem grande, entre o handebol brasileiro e o europeu.
AH - Há algum fundamento específico que o Brasil precisa aperfeiçoar, ou seja, existe algum detalhe técnico que pode ser determinante nos resultados do Brasil contra equipes fortes?
Ivonete - No Pan, ficamos muito satisfeitos com a qualidade técnica individual das atletas. É claro que a exigência foi baixa, mas mesmo assim, tivemos um excelente poder de finalização, com uma média de 80% de acerto, o que sinaliza que as brasileiras estão se conscientizando e diminuindo os erros de fundamento. Mas ainda erramos e precisamos melhorar cada vez mais finalização, recepção, fundamentos básicos.
 Celinha, Tayra, Ivonete Fagundes, Juceli e Viviane Jacques representaram o handebol de São Bernardo nos Jogos Pan-Americanos (Foto: Divulgação Clube Mesc)
AH - Você acha que há uma tendência de crescer o número de atletas brasileiros em clubes europeus?
Ivonete - Sim, perdi uma jogadora recentemente, a Ana Amorim, que foi para a Macedônia. Várias jogadoras e jogadores têm sido muito elogiados e recebido convites de clubes europeus, acho que a tendência é essa mesmo.
AH - E acredita que seja positivo para o handebol brasileiro exportar os seus talentos? Como ficariam os campeonatos aqui?
Ivonete - Acho que tem os dois lados, é positivo para os nossos atletas entrarem em contato com os melhores jogadores e as melhores ligas do mundo, mas claro que os nossos campeonatos perderiam com isso. Toda escolha requer perdas, cada atleta precisa analisar o que é melhor para a sua carreira e para o seu crescimento.
AH - Sobre a parceria entre Metodista e Mesc... Como foi esta primeira temporada?
Ivonete - A parceria foi positiva, não tivemos ainda resultados muito bons, mas para mim não foi tão surpreendente porque, apesar de termos grandes talentos, o handebol depende do coletivo e as atletas vieram de equipes diferentes, com estilos de jogo diferentes, é difícil conseguir fazer com que todas estejam entrosadas e não é em uma temporada que vamos conseguir isso. No 1º semestre, as jogadoras estavam comprometidas com as Seleções, temos algumas jogadoras da Seleção Júnior e outras da Adulta, e houve semanas em que a comissão técnica deu treino para apenas cinco, seis jogadoras. Quando montamos essa equipe, sabíamos que haveria este problema, agora precisamos administrá-lo e conseguir dar um conjunto para a equipe.
AH - E como você avalia a evolução da equipe e o 3º lugar na Liga Nacional?
Ivonete - Desde o início traçamos o objetivo de ficar entre os quatro melhores. Sabíamos que seria difícil por ser uma liga curta, por haver problemas com contusões, perdemos a Fabiana e a Juceli. Disputamos com equipes que estão com um conjunto muito bom e treinando forte, como Santo André e São Caetano, além do Ulbra, que sempre foi muito bom nas ligas que participou, do Univila, que tem mostrado que está crescendo a cada competição, do Osasco, que tem tradição e, é claro, Guarulhos e Mauá, que sempre foram os favoritos isolados.
 Equipe da Metodista/Mesc/São Bernardo comemora a conquista do bronze na Liga Nacional 2003 (Foto: Divulgação Clube Mesc)
AH - Você acredita que a profissionalização esteja próxima para o handebol brasileiro?
Ivonete - Eu acho que algumas equipes já têm uma estrutura muito próxima da profissional, mas em grande escala, acredito que estamos longe disso. Infelizmente, apesar do handebol viver um bom momento, acredito que a profissionalização ainda está longe.
AH - Como técnica, quais as características que você procura nas atletas, o que é preciso ter para ser um potencial, na sua concepção?
Ivonete - Eu acho essencial a vontade de aprender sempre mais, a disposição para aprender e crescer, estar sempre disposta a melhorar. Eu gosto de atletas que vivam o jogo, que tenham determinação. O restante, o treinamento ajuda, mas a vontade e a determinação ninguém ensina.
AH - Alguma característica física?
Ivonete - Não, eu tenho desde jogadoras altas e fortes, como baixas e leves, cada uma na sua habilidade.
AH - Que mensagem você deixa aos jovens que praticam o handebol e sonham em um dia chegar a uma grande equipe?
Ivonete - Você tem que estudar muito, estar sempre se atualizando, o atleta tem que estar aberto a ouvir e aprender sempre. Onde você acha que não pode melhorar, você aprende, seja com técnicos ou com colegas. Acho que é por aí... Ser dedicado, gostar muito do que faz, não é fácil, a cobrança é grande, mas você não deve se importar com as críticas que possam vir e fazer o melhor no seu trabalho!
AH - Agradecemos muito a sua contribuição para o site e desejamos boa sorte no Campeonato Mundial e em 2004!
 (Foto: Divulgação Clube Mesc)
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