ENTREVISTA – JAQSON
Silvia Marques – Novembro / 2003

Nome Completo: Jaqson Luiz Kojoroski
Data de Nascimento: 3 / 1 / 1979
Naturalidade: Descanso - SC
Altura: 1, 92 m
Peso: 95 kg
Posição: Armador Esquerdo
Equipe: Imes/São Caetano
 Jaqson se livra da marcação do argentino Kogovsek (Foto: Arquivo Pessoal)
AH - Onde você começou a jogar e qual foi sua trajetória até o Imes?
Jaqson – Comecei a jogar em São Miguel do Oeste, Santa Catarina, cidade em que morava e onde minha família vive até hoje. Minha história no handebol começou quando participei de Jogos Escolares e chamei a atenção do técnico do A D Concórdia, Alexandre Schneider, que é hoje o técnico da Seleção Adulta Feminina. Fui convidado para compor a equipe e fiquei lá de 93 a 97. Fui então para o Politec/Americana e no final da temporada de 99 vim para o Imes/São Caetano.
AH – E como foi o início em São Paulo? Você teve o apoio de sua família para se mudar?
Jaqson – Meus pais sempre me apoiaram em tudo que fosse o melhor pra mim, quando saí de Santa Catarina tive todo o apoio porque aquela era a minha chance de crescer no esporte. Não tive nenhum problema com relação a isso, até porque desde 96 eu já me sustentava financeiramente. Apesar de ser difícil, tanto pra eles quanto pra mim, conviver com a distância, sempre pude contar com todo o apoio.
AH – E o que você aconselha aos jovens que estão em outros estados do Brasil e sonham em vir para São Paulo para tentar ingressar em uma grande equipe?
Jaqson – É preciso treinar bastante, levar o esporte a sério e não apenas como um hobby, e tentar realmente fazer testes e ingressar em uma boa equipe. É um pouco difícil para quem é de fora se acostumar no início a morar em república, dividir quarto, mas apesar das dificuldades e da saudade da família, vale a pena porque com o tempo aparecem oportunidades e vem também o retorno financeiro.
 Ao lado de Alexandre Schneider, técnico que o descobriu (Foto: Arquivo Pessoal)
AH – Quando foi sua primeira convocação para a Seleção Brasileira?
Jaqson – Minha primeira convocação foi em 1996, para a Seleção Brasileira Juvenil. Fui convocado depois de ter composto a Seleção Catarinense no ano anterior. Em 1997 fui convocado para a Seleção Brasileira Júnior e participei do Mundial da categoria na Turquia. Minha primeira convocação para a Seleção Adulta foi em 2000. Naquele mesmo ano fui cortado mas retornei em 2001.
AH – Quais foram os principais campeonatos internacionais que você participou?
Jaqson – Mundial Júnior da Turquia - 97 / Campeonato Sul-Americano - Brasil 97 / Campeonato Pan-Americano - Argentina 2002 / Jogos Sul-Americanos - Brasil 2002 / Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo - 2003.
AH – Você foi convocado para o Mundial de Portugal mas acabou não indo. O que aconteceu?
Jaqson – Eu estava machucado, levei uma pancada muito forte na costela e precisava de um tempo sem jogar para me recuperar, por esse motivo acabei não sendo liberado pelo médico para o Mundial.
AH – Na sua opinião, o Calendário Nacional teria atrapalhado o desempenho da Seleção no Mundial? Você próprio é um exemplo da falta de tempo que os atletas tiveram para se recuperar do final da temporada.
Jaqson – O Calendário Brasileiro é muito puxado, não é formulado visando esse tipo de problema. Na Europa é bem mais organizado, existe período de treinamento, de descanso, de campeonato... Em época de convocação de Seleção nenhum clube treina. Aqui a temporada dura praticamente o ano inteiro, se tivéssemos uma organização nos padrões europeus com certeza melhorariam bastante as condições para os atletas.
AH – Como você e o restante da Seleção se prepararam para os Jogos Pan-Americanos?
Jaqson – Normalmente nós treinamos e nos preparamos para o clube. Este ano, além disso, tivemos também preparação física, psicológica, acompanhamento nutricional e treinamentos com a Seleção. Conseguimos alcançar o nosso objetivo, trazendo o resultado que o handebol brasileiro precisava.
AH - E como foi o confronto com a Argentina na final? Você acha que eles subestimavam os brasileiros?
Jaqson - Estávamos com aquela frase do Eric Gull entalada, ele declarou numa entrevista que nas finais "los brasileños son cagones". Não queríamos mais ouvir esse tipo de coisa e entramos forte, assim como eles, tanto que o tempo normal acabou com empate. Mas na prorrogação conseguimos impor o nosso ritmo e... SHOW!
 Jaqson, Baldacin e China comemoram a vitória no Pan (Foto: Agência Estado)
AH - Agora, depois do Pan, você percebeu alguma melhora na divulgação do handebol?
Jaqson - Acho que melhorou bastante, muitas pessoas que não conheciam o handebol passaram a gostar e assistir, isso é muito bom, muito interessante para o handebol brasileiro. Agora é treinar para as Olimpíadas!
AH - E como você tem se preparado para estar bem e ser selecionado para as Olimpíadas de Atenas, ano que vem?
Jaqson - Eu pretendo estar bem psicologicamente, muito tranquilo, e também fisicamente, irei treinar muito para estar bem na quadra. IO objetivo de todo atleta é ir para as Olimpíadas e eu pretendo realizar esse sonho!
AH – Sobre a equipe do Imes/São Caetano... Vocês estiveram na final da Liga de 2002, do Campeonato Paulista de 2003, dos Jogos Abertos de 2003 e em todas as ocasiões quase ficaram com o título. Como será agora o trabalho para a reta final da Liga Nacional?
Jaqson – Todos nós aqui do Imes estamos cansados desse "quase"... Somos bastante cobrados e nosso grande objetivo este ano é a Liga Nacional. Estamos treinando bastante para conseguir chegar à final e quebrar a hegemonia da Metodista, que ganhou todas as Ligas até hoje. O título dos Jogos Abertos era importante para a prefeitura de São Caetano, fizemos um trabalho físico muito forte e nos preparamos para a final, mas acabamos nos desgastando justamente em conseqüência desse trabalho e deixamos a vitória escapar.
AH – Como é a rotina de treinamentos do Imes?
Jaqson – São duas horas de academia e duas horas e meia com bola, de 2ª a 6ª feira. Às vezes aos sábados também temos treinos de manhã e à tarde.
 Em ação pelo Imes/São Caetano (Foto: Arquivo Pessoal)
AH – Como você se prepara? Sua alimentação, suplementação alimentar...
Jaqson – Minha alimentação não é nada exemplar para um atleta... Na verdade eu como de tudo, não corto sal, gordura, essas coisas que deveria fazer, e também não sigo horários para comer. Com relação à suplementação, eu uso creatina para facilitar o aumento de massa durante a musculação, aminoácidos, para repor o peso perdido durante os exercícios, e maltodextrina, para repor líquidos durante treinos de quadra.
AH – O que você pensa sobre doping e como acha que deveria ser feito o controle de substâncias proibidas?
Jaqson – Eu não sou a favor do uso de substâncias proibidas, acho ruim porque prejudicam o atleta a longo prazo. Acho que deveria existir mais exames anti-doping no handebol, não existe controle nos campeonatos internos devido o custo ser muito alto. Com a aproximação dos Jogos Pan-Americanos acredito que o COB fará testes nas fases de Seleção em todas as modalidades. Acho importante inibir o uso de drogas e suplementos ilegais, as famosas “bombas”, porque deixam o atleta muito acima de sua capacidade normal e obviamente isso compromete os resultados dos demais.
AH – Você é um jogador de marcação forte e com isso acaba sendo freqüentemente excluído por dois minutos ou até mesmo desqualificado, muitas vezes em momentos cruciais. Você acha essa sua característica boa ou ruim?
Jaqson – Eu considero essa minha característica mais positiva do que negativa. Eu chego forte, ajudo o time a marcar, e se acabo levando dois minutos porque não tinha outro jeito, fazer o que? Na verdade, tenho levado muitos dois minutos ultimamente porque acho que os árbitros estão meio de marcação comigo! Em 2001 levei dois minutos apenas duas ou três vezes durante o ano todo, já no ano passado, só na Liga Nacional fui desqualificado duas vezes, e em lances que nem deveria ter sido.
AH – E você nunca leva uma “chamada” do técnico, pra pegar mais leve, porque dependendo da situação é melhor sofrer o gol do que perder o jogador?
Jaqson – Não, só em algum lance que não oferece muito perigo e que eu poderia deixar passar. Mas normalmente o técnico prefere que eu marque forte e se acabar levando dois minutos é simplesmente conseqüência do jogo.
AH – O que você considera sua maior qualidade e o que gostaria de melhorar?
Jaqson – Acredito que minha qualidade é sempre procurar manter a união do grupo, acabo sendo um pouco “palhaço”, levo as coisas na brincadeira, faço todo mundo rir, acho que é importante se manter um clima descontraído na equipe. O que pretendo melhorar é meu condicionamento físico, quero voltar a ter o desempenho que tive em 99, quando fui artilheiro do Campeonato Paulista. Meu objetivo este ano é estar bem fisicamente e quem sabe chegar à artilharia de algum campeonato.
 Medalha de ouro conquistada nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo (Foto: Arquivo Pessoal)
AH - Você pretende ir para a Europa? Já surgiu alguma oportunidade?
Jaqson - Eu tenho um agente esportivo que tem contatos na Europa, e através dele já apareceram propostas. Tem um time dinamarquês que se interessou por mim, tem também uma equipe alemã de 3ª divisão que tem um técnico brasileiro, o Nei, que já me convidou para jogar, enfim, mas tudo irá depender do que ele encontrar e do que for melhor para mim. Eu tenho que pensar bem antes de sair do Brasil, ainda não terminei a faculdade, talvez ano que vem ou o próximo. Mas tenho uma vontade imensa de ir, seria muito bom aprender um jeito novo de jogar, uma nova cultura, acho que me traria uma grande evolução.
AH – Além do handebol, o que você faz? Estuda, trabalha...
Jaqson - Eu estudo de manhã, curso o 3º ano de Publicidade no Imes, à tarde faço trabalhos da faculdade ou descanso e à noite tenho musculação e treino.
AH – Você consegue levar uma vida “normal” ou acaba dedicando 99% de sua vida ao esporte?
Jaqson – Todo atleta acaba se dedicando mais ao esporte, às vezes 100% do tempo! No meu caso, saí da minha cidade, modifiquei a minha vida, tudo pelo esporte. Eu procuro levar uma vida mais ou menos normal, estudo, namoro, mas é difícil. Estou num momento em que preciso me dedicar o máximo possível ao esporte.
AH – Você pretende continuar jogando ainda por muitos anos?
Jaqson – É complicado para o atleta tomar a decisão de parar. Falar é fácil, parar é difícil... Alguns conseguem manter o rendimento por bastante tempo, como o SB, por exemplo. Aqui no Imes temos o Marquinhos, que está com 34 anos e numa forma física excelente, tão boa quanto a dos jogadores de 24, 25 anos. Acho que é só manter um bom treinamento, condicionamento físico, que dá pra jogar bastante tempo. Eu pessoalmente pretendo jogar até quando minhas pernas agüentarem!
AH – Você costuma interagir bastante com a torcida. Já te aconteceu alguma situação atípica ou engraçada?
Jaqson – Eu acho muito gratificante a resposta da torcida, gosto muito e procuro dar atenção sempre que possível. Recebo cartas de fãs de vários estados, que escrevem pro DETUR de São Caetano. Uma situação engraçada aconteceu depois da final do Sul-Americano ano passado: a Seleção estava indo para o ônibus e parei para dar alguns autógrafos. Começaram a me pedir camiseta, isso e aquilo, e acabou que foram tirando as coisas da minha mochila, levaram até as meias que eu tinha usado no jogo e por pouco não fiquei sem a camisa que estava vestindo! Sempre que eu posso e que eu tenho procuro dar camiseta de presente, mas se é a única que eu tenho pra vestir não dá, né!
AH – Pra finalizar, deixe um recado para quem está iniciando no handebol.
Jaqson – Para quem está iniciando, aconselho que procure clubes federados e busque a oportunidade de competir. Se volte sempre ao esporte pois é um caminho muito bom e gratificante.
AH – Muito Obrigado em nome de toda a equipe do site e dos torcedores!
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