ENTREVISTA - MINEIRO
Silvia Marques - Julho / 2003

Nome Completo: Eduardo Henrique dos Reis
Data de Nascimento: 7 / 3 / 1970
Naturalidade: Belo Horizonte - MG
Altura: 1, 90 m
Peso: 82 kg
Posição: Armador direito
Equipe: Imes/São Caetano
AH - Quando e onde você começou a jogar, e qual sua trajetória até chegar ao Imes?
Mineiro - Comecei jogando na escola, em Belo Horizonte. Depois ingressei no Clube Libanês, onde fiquei por um ano, de lá fui para o América, e em 87 vim para São Paulo, a convite do Clóvis, para jogar no Esporte Clube Pinheiros. Na época eu ainda pertencia à categoria juvenil, mas me adaptei muito bem, o clube me proporcionou inclusive casa e estudo. Joguei sete anos no Pinheiros, depois dois anos em Guarulhos, e agora estou há sete anos no São Caetano.
AH - Quando foi sua primeira convocação para a Seleção Brasileira?
Mineiro - Fui convocado pela primeira vez quando ainda era juvenil, para disputar um campeonato na Argentina, mas acabei não indo. Então a minha primeira convocação de fato foi em 91, quando fui chamado para a Seleção Júnior, para disputar o Mundial Júnior da Grécia, e também para a Seleção Adulta, para os Jogos Pan-Americanos de Havana. Eu acabei optando por não ir para o Pan para poder participar do Mundial. Na ocasião ficamos três meses jogando na Europa.
AH - Quais foram os principais campeonatos que você participou com a Seleção?
Mineiro - Mundial Júnior da Grécia em 91, Jogos Pan-Americanos de Mar Del Plata em 95 (ficamos em 2º lugar), Mundial Adulto do Japão em 97, Mundial Universitário em 97 (ficamos em 9º lugar), Mundial Adulto do Egito em 99, Mundial Universitário em 99 (ficamos em 5º lugar), Mundial Adulto de Portugal em 2003, além de alguns campeonatos Sul-Americanos e Pan-Americanos. O que falta para mim é ser campeão Pan-Americano e ir para as Olimpíadas!
 Mimeiro se preparando para defender a Seleção Brasileira
AH - Você chegou a treinar para as Olimpíadas de Atlanta em 96, mas acabou sendo cortado na convocação definitiva. Como foi?
Mineiro - Foi uma fase difícil que eu passei... O Brasil teve direito à vaga Olímpica porque havia ficado em 2º nos Jogos Pan-americanos de 95 e Cuba, que foi a campeã, desistiu da vaga. Toda a comissão técnica foi trocada em 96 e apesar de eu estar treinando com a Seleção já desde 93, acabei sendo cortado pelo técnico Alberto Rigolo, que foi quem assumiu a Seleção. Na época fiquei chateado, não me convenci pelos motivos que foram alegados para o meu corte, e fiquei meio estremecido com o Alberto. Mas depois conversamos, superamos isso, e já em 97 fui convocado para o Mundial do Japão e ficou tudo bem.
AH - Então a conquista da vaga Olímpica este ano tem um significado especial para você?
Mineiro - Muito! Além de ser a primeira conquista de Jogos Pan-Americanos para o handebol masculino, é também a nossa única chance de poder ir para as Olimpíadas ano que vem. É muito importante para o Brasil ir para as Olimpíadas como campeão Pan-Americano, porque das outras duas vezes que o Brasil foi, Barcelona e Atlanta, foi porque Cuba desistiu.
AH - E qual a sua expectativa? Como você avalia as condições do Brasil, a evolução no último ano...
Mineiro - Estamos trabalhando com essa comissão técnica, com esse grupo, desde o início do ano passado. Na final do Campeonato Pan-Americano de 2002, estávamos com quatro gols de vantagem sobre a Argentina faltando alguns minutos para acabar o jogo, mas não soubemos segurar e acabamos perdendo. Tenho esperança que desta vez vamos ganhar, temos vários jogadores experientes, com experiência de Mundiais, e também o Bruno, que joga na Alemanha. O mais importante é o grupo estar unido num objetivo, que com certeza podemos ganhar esse Pan-Americano!
AH - Qual foi, na sua opinião, o detalhe que deu à Argentina a vitória nas últimas competições?
Mineiro - Acho que foi a nossa precipitação, chegamos a ter o jogo na mão e cometemos erros bobos, de ansiedade, de querer correr e ganhar o jogo logo. E lá na Argentina, nesse último Campeonato Pan-Americano, foi complicado, muita torcida, os árbitros foram completamente imparciais... Numa partida contra a Argentina é preciso ter muita cabeça, muita calma, não podemos entrar no jogo deles.
AH - E vocês estão se preparando, no aspecto psicológico?
Mineiro - Sim, estamos fazendo um trabalho com a psicóloga, fazemos trabalho em grupo e individual. Temos essa noção, essa convicção de que se jogarmos tranqüilos, com a cabeça, vamos ganhar o jogo!
AH - Qual a sua avaliação do Brasil no último Mundial?
Mineiro - O Brasil estava bem, jogamos muito bem esse Mundial. Infelizmente eu sofri uma contusão durante um amistoso que jogamos em La Coruña, o time contra quem estávamos jogando parecia que estava num Mundial, estavam correndo, se jogando, e um espanhol doido caiu em cima do meu joelho! Rompi o ligamento colateral, que não é tão grave, mas praticamente me tirou do Mundial, fiquei muito triste. Entrei um pouco nos jogos contra a Suécia, Eslovênia e Egito mas estava manco, com o joelho duro. Não tivemos um resultado expressivo nem a colocação que merecíamos porque caímos num grupo muito difícil, mas jogamos de igual pra igual contra Dinamarca, Suécia, enfim...
AH - Falando agora sobre o Imes... A equipe esteve muito próxima da conquista do Campeonato Paulista este ano, o que você acha que prejudicou o desempenho de vocês nas finais?
Mineiro - Estivemos mal no primeiro jogo, tínhamos conversado sobre não precipitar, não levar o jogo individualmente, que se fizéssemos tudo certinho, priorizando o coletivo teríamos boas chances de ganhar, mas isso acabou não acontecendo. No segundo jogo todo mundo entrou concentrado, não precipitando, ninguém tentou resolver sozinho e conseguimos vencer. No terceiro jogo chegamos a encostar no placar no final do 2º tempo, mas acabamos perdendo a chance do empate e da virada. Um dos fatores que atrapalhou a equipe foi a rotina muito corrida que estávamos tendo naqueles dias, com Seleção, Jogos Abertos Brasileiros (em que fomos campeões) e Campeonato Paulista. Tivemos também uma virose na equipe, eu, o Alê e o China tivemos uma gripe forte na época das finais.
AH - E as expectativas para os próximos campeonatos este ano?
Mineiro - Temos sempre o objetivo de chegar às finais e ganhar! O Paulista não deu, mas vamos entrar para ganhar os próximos. Tem os Jogos Regionais, para o qual irá um grupo um pouco diferente por haver vários atletas com a Seleção, mas a equipe que vai tem o objetivo de ganhar, e depois teremos os Jogos Abertos e a Liga Nacional. Estamos com uma estrutura boa, com a parceria com a Prefeitura de São Caetano e com o Imes, e vamos ver se conseguimos um título importante ainda este ano!
 Mineiro no ataque contra a Metodista
AH - Você assistiu às reportagens feitas pela ESPN Brasil sobre doping? O que você pensa sobre as especulações que foram feitas por aquele médico, que envolvem inclusive o handebol?
Mineiro - Assisti, e com certeza não passa de especulação! Estamos com esse grupo há quase dois anos e temos um pacto de não tomar nada, nenhum medicamento ou suplemento que não seja receitado e avaliado pelo médico fisiologista que acompanha a equipe. Não tomamos absolutamente nada sem que antes passe pelo médico, e com certeza no handebol não haverá nenhum caso de doping. Eu estou tranqüilo com relação a isso, não me preocupo porque não tomo nada e não tenho nenhum tipo de vício.
AH - Você acha que um "profissional" que vai à TV com esse tipo de afirmação quer apenas aparecer e se promover?
Mineiro - Eu sei lá o que se passa na cabeça desse cara... Acho que para ele chegar a esse ponto, tem que provar, por que não dá os nomes então? É muito sério alguém chegar ao nível de ir para a televisão dizendo que nas modalidades tal e tal há atletas dopados porque isso compromete muitos atletas, é muito perigoso falar esse tipo de coisa. Ele diz ser médico de Seleção mas eu não o conheço e também nunca ouvi falar dele!
AH - Qual é sua formação e atividade profissional além do handebol?
Mineiro - Sou formado em Educação Física, trabalhei um pouco nessa área, como técnico de categorias de base no Pinheiros e como professor em algumas escolas. Depois acabei montando um negócio em sociedade com o meu irmão, e estou com ele até hoje. Temos uma empresa que faz lavagem de veículos, aeronaves e helicópteros. Estamos no Aeroporto de Congonhas e no Shopping Morumbi.
AH - Quais os seus planos para o futuro?
Mineiro - Agora com certeza é ganhar os Jogos Pan-Americanos! Vou pensar no futuro depois deste campeonato, somente depois de estar definida a nossa ida ou não para as Olimpíadas é que vou me programar.
AH - Você tem 33 anos e está bem fisicamente. Pretende continuar jogando ainda por alguns anos, ter uma carreira longa como a do SB?
Mineiro - É, estou bem, estou tranqüilo fisicamente... Mas acho complicado continuar jogando na Seleção por muito tempo porque a Seleção consome tempo, temos que ficar concentrados, viajar, e tenho esse negócio que montei e preciso dar seqüência, preciso ter estabilidade financeira, tenho dois filhos, então não posso ficar só jogando handebol. Mas com certeza pretendo ainda continuar um bom tempo no clube.
AH - E como é a sua vida familiar? Seus filhos gostam de handebol, entendem a sua ausência por causa do esporte?
Mineiro - Eu já fui casado duas vezes, mas atualmente estou solteiro. Tenho um filho de nove anos, do primeiro casamento, e uma filha de três anos, do segundo casamento. Meu filho já entende, gosta, assiste, sempre que possível ele vai aos jogos e já pratica esporte na escola. Minha filha ainda é muito pequena, não entende muito. Eles se acostumam com a minha ausência porque desde que nasceram eu já vivia essa rotina, mas é complicado, acho inclusive que foi por eu ter que viajar muito que meus casamentos não deram certo. Casei muito novo e faltou maturidade da minha parte, hoje já cresci e amadureci muito.
AH - O que você diz para as pessoas que querem ser atletas de handebol? É muito difícil, vale a pena...
Mineiro - Eu sou suspeito de falar porque o handebol é uma paixão... O atleta é movido a muita paixão porque não há muito retorno. Muita gente já me perguntou por que eu não fui jogar vôlei ou outra modalidade que tenha um retorno maior, mas eu comecei a jogar handebol e me apaixonei, e tudo o que eu tenho e sou hoje devo ao handebol. Me formei, tenho uma vida tranqüila, sem contar o caráter, a personalidade, tudo que o esporte me proporcionou. E acho que no futuro as coisas vão melhorar, já estão melhorando bastante, já estamos com uma estrutura boa, estamos plantando agora para virem os resultados no futuro.

AH - O patrocínio da Petrobrás pode ser um marco no handebol brasileiro?
Mineiro - Eu não sei ainda, vamos sentir o efeito um pouco mais pra frente, com a melhora da estrutura e tudo mais. Mas o fato de existir o investimento de uma grande empresa é essencial, se tivéssemos tido isso mais cedo...
AH - Você não acha que no Brasil o patrocínio e o espaço na mídia normalmente só chegam depois de resultados importantes?
Mineiro - Eu acho que sim, precisamos ter um resultado expressivo para termos o reconhecimento de todo mundo, ninguém quer saber do segundo lugar, principalmente brasileiro, quer sempre o primeiro lugar! E isso está errado, o certo seria termos antes as condições para depois vir o retorno.
AH - Agora, para finalizar, deixe um recado para os torcedores brasileiros!
Mineiro - Eu queria que todo mundo torcesse muito pra gente! Estamos treinando muito, trabalhando muito, e o que espero é isso, força do pessoal porque vamos fazer tudo para ganhar e se conseguirmos será uma festa. Torçam pra gente porque estamos indo para ganhar!
AH - Em nome de toda a equipe do site, agradeço muito a sua colaboração e desejo muita sorte no Pan!
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