ENTREVISTA – MAIK E MARCÃO
Silvia Marques e Tarcius Guedes - Março / 2003

MAIK
Nome Completo: Maik Ferreira dos Santos
Data de Nascimento: 20 / 9 / 1980
Naturalidade: São Paulo - SP
Altura: 1, 78 m
Peso: 85 kg
Posição: Goleiro
Equipe: Metodista / São Bernardo

MARCÃO
Nome Completo: Marcos Paulo dos Santos
Data de Nascimento: 26 / 2 / 1977
Altura: 1, 84 m
Peso: 92 kg
Naturalidade: São Paulo - SP
Posição: Goleiro
Equipe: Metodista / São Bernardo
AH – Como foi o início da carreira de vocês e a trajetória no handebol?
Maik – Comecei a treinar na categoria Infanto-Juvenil em 94, com o prof. Eduardo Leite (assistente técnico do prof. Alberto Rigolo), aqui na Metodista. Em 95 passei a jogar como federado, e aos 17 anos passei a integrar esporadicamente a equipe adulta, substituindo algum atleta machucado. Aos 18 anos comecei a participar efetivamente dos jogos, os técnicos confiaram em mim e eu consegui dar conta do recado e me firmar na categoria Adulta.
Marcão – Iniciei também na categoria Infanto-Juvenil aqui na Metodista, mas um pouco antes do meu irmão, em 92. Inicialmente eu nem me interessava muito pelo handebol, já que o esporte mais divulgado no Brasil é o futebol, mas o prof. Laércio Malísia fez um trabalho muito bom, que despertou meu interesse pelo esporte e me incentivou a praticar. Em 93 passei a fazer parte da primeira equipe Infanto-Juvenil da Metodista e já no 1º ano tivemos bons resultados. Desde então fui evoluindo até chegar à categoria Adulta, aos 22 anos.
AH – Como vocês se sentem ao serem apontados como os melhores goleiros do handebol brasileiro?
Maik – Acho que é tudo fruto do nosso trabalho, treinamos muito, tentamos fazer o melhor possível, mas deixamos para os outros decidirem se somos bons ou não, na verdade não pensamos muito nisso. Mas claro que é gostoso ouvir que somos os melhores do Brasil!
Marcão – Nossa! É muito gratificante, acho que este reconhecimento é resultado do nosso esforço, do que a gente faz em quadra. Ser considerado um dos melhores ou algo parecido é muito legal, mas não podemos deixar de lado a seriedade do nosso trabalho, precisamos ter sempre como objetivo melhorar. Por exemplo, se defendemos um número x de bolas num campeonato, colocamos como meta trabalhar ainda mais para aumentar esse número no campeonato seguinte. Nosso trabalho hoje tem também como objetivo conseguir profissionalizar o esporte.
AH – Como é a rotina de treinos da Metodista e como vocês, sendo irmãos e colegas de equipe, se ajudam nos treinamentos e no cotidiano?
Marcão – De maneira geral treinamos 2 horas e fazemos 2 horas de academia diariamente. Não temos treinador específico para goleiro, então nós mesmos somos responsáveis por essa parte. Com a experiência que adquirimos ao longo do tempo, procuramos aplicar o que aprendemos e estamos também cursando faculdade de Educação Física (estou no 2º ano e Maik no 4º), que tem nos ajudado a direcionar melhor os exercícios e nos aperfeiçoar. Nós procuramos também nos espelhar nos grandes goleiros brasileiros, como o Jabá, que foi o melhor goleiro do Brasil durante vários anos, o Cachorrão, e vários outros que foram muito bons e serviram a Seleção Brasileira no passado.
Maik – Existe entre nós uma cobrança, no bom sentido. Eu cobro do Marcão que ele jogue muito bem e ele cobra de mim, assim a gente se ajuda nos treinos e nos jogos.
 Maik em ação contra o Imes / São Caetano
AH – Que aprendizado vocês tiraram do Mundial e como foi o desempenho do Brasil, na opinião de vocês?
Maik – Pra mim, o mais importante foi sentir que o Brasil está conseguindo se aproximar do nível dos europeus e jogar de igual pra igual contra eles. Até pouco tempo atrás não tínhamos essa capacidade, perdíamos por muitos gols de diferença. Esse Mundial mostrou que temos condições de atingir nossos objetivos. Melhoramos muito e perdemos de equipes muito fortes por uma diferença pequena de gols.
Marcão – Este foi o 8º Campeonato Mundial que participei (entre as categorias Junior, Adulto, e dois Mundiais de clubes com a equipe da Metodista) e tem sido muito bom acompanhar a evolução da equipe. Teoricamente nós pioramos, caímos da 16ª para a 22ª colocação, mas na prática mantivemos uma boa regularidade e jogamos de igual pra igual em todas as partidas. Foi muito importante também ouvir de professores de handebol europeus que estamos no caminho certo, que só precisamos consertar alguns detalhes para atingir o nível das equipes de lá.
AH – Qual foi, na opinião de vocês, o ponto forte e o ponto fraco do Brasil neste Mundial?
Marcão – Acho que a nossa parte tática está muito boa, o trabalho que o técnico Alberto Rigolo tem realizado está dando certo e pode ser considerado o nosso ponto forte. Por outro lado talvez nossa condição física seja o ponto fraco, em alguns jogos contra equipes fortes sentíamos cansaço muito antes do adversário. O fato do nosso calendário ser desencontrado do calendário europeu nos prejudica nesse sentido, porque quando acabamos nossa temporada e estamos bastante desgastados, os europeus estão em meio de temporada, na melhor condição física. Outro problema do Brasil é a estatura, temos uma equipe baixa em relação aos europeus.
AH – E as expectativas para o Panamericano... Vencer os Argentinos?
Maik – É o nosso objetivo! Estamos treinando desde o ano passado visando este Panamericano e conseqüentemente a classificação para as Olimpíadas. Acredito que com o trabalho e os treinamentos que estamos realizando temos condições de atingir nossa meta.
Marcão – Desde o Panamericano de Winnipeg, em 99, em que vencemos a Argentina e acabamos perdendo a Final contra Cuba somente nos 7 metros (empatamos no tempo normal e nas duas prorrogações) estamos determinados a consertar nossas falhas para este Panamericano. Naquela ocasião deixamos a vitória escapar por muito pouco, tivemos chances claras de finalizar a partida e desperdiçamos, e isso nos custou a vaga Olímpica para Sidney.
AH – O que tem sido o diferencial a favor dos argentinos nos últimos anos? Já há algum tempo o Brasil não vence...
Marcão – A última vez que vencemos a Argentina foi em 2000, num Campeonato Sul-Americano, em Buenos Aires. Acho que o diferencial a favor deles é o fato de alguns jogadores argentinos atuarem na Europa, porque jogando no handebol europeu eles adquirem experiência e alto nível técnico. O trabalho que vem sendo realizado na Seleção Brasileira, que inclui amistosos com equipes européias, tem somado bastante à nossa equipe com relação a nível técnico, tempo de bola, e com isso esperamos reverter esse quadro.
AH – Os europeus utilizam muito bem o pivô e o 2º pivô, o que é incomum no handebol brasileiro. Que dificuldades vocês encontram para defender arremessos desses jogadores?
Marcão – De fato é bem diferente receber um arremesso de um jogador brasileiro e de um europeu. Quando o arremesso é de 6 metros a dificuldade realmente é grande para o goleiro. Nesse caso, tentamos priorizar algumas metas: Se o 2º pivô recebe essa bola do lado direito ou esquerdo temos maiores chances de defesa porque o ângulo dele se torna mais curto, mas quando o jogador recebe a bola livre, com tempo para avaliar a postura do goleiro e retificar o arremesso é muito difícil mesmo. Por isso, o objetivo da nossa defesa tem sido dificultar a recepção de bola pelo pivô. Neste Mundial tivemos êxito nesse sentido, especialmente no jogo contra a Dinamarca. O técnico Alberto Rigolo enfatizou bastante alguns pontos importantes em nossos treinamentos e tivemos bons resultados.
Maik – Além disso, nossa maior característica é a velocidade e treinamos muito o tempo de reação. Nas nossas defesas procuramos fechar o ângulo curto e com isso viabilizar ao adversário somente o arremesso longo, dessa forma usamos a velocidade de reação para defender. Temos conseguido bons resultados, mas é difícil, principalmente contra os europeus.
 Marcão defendendo contra a Suécia, no último Mundial
AH – E como vocês trabalham as defesas num jogo contra adversários muito altos?
Marcão – No nosso caso, que somos goleiros baixos, a dificuldade maior são os jogadores que têm muita impulsão, pois o tempo desse tipo de jogador é diferente. Nesse tipo de situação, precisamos nos posicionar mais dentro do gol e trabalhar os braços altos, para não permitir que o adversário desvie com facilidade.
Maik – Mesmo se o jogador tiver 2, 10 m de altura, as balizas têm 3 m por 2 m, portanto o arremesso virá dentro desse espaço. Dependendo da distância do jogador é possível fazer algumas defesas, mas se o arremesso vem dos 6 ou 7 metros fica realmente muito difícil.
AH – Quais goleiros chamaram a atenção de vocês no Mundial e por que?
Maik – Gostei muito do goleiro reserva da Espanha (Javier Hombrados). Ele se mostrou muito tranqüilo, concentrado, e fez muita diferença na equipe dele quando foi preciso. Ele foi inclusive muito elogiado pela imprensa.
Marcão – Me chamou a atenção o goleiro da Alemanha (Henning Fritz). Além de contar com uma defesa muito alta (grande parte da Seleção Alemã mede mais de 2 metros), que favorece o trabalho do goleiro, ele joga com velocidade, que é raro em goleiros altos.
AH – Maik, você foi provavelmente o goleiro mais baixo do Mundial. Até que ponto a baixa estatura atrapalha?
Maik – Eu costumo brincar que sou um pequeno grande homem, pra não baixar minha auto-estima! Procuro confiar em mim, principalmente no meu posicionamento e na velocidade de reação, que são minhas principais características, para conseguir boas defesas apesar de não ter o biotipo da maioria dos goleiros.
AH – Você tem também uma peculiaridade de também jogar no ataque quando necessário. Você sempre foi goleiro?
Maik – Sempre fui goleiro, mas desde que comecei a treinar gostava também de jogar na linha. Por curiosidade comecei a praticar, por conta própria mesmo, e acabei adquirindo uma certa habilidade. Só joguei de fato na linha em um campeonato escolar, mas até hoje sempre que é necessário e o técnico pede estou disposto a ir pro ataque.
AH - Vocês acham que ainda existem pontos a serem aperfeiçoados na técnica de vocês?
Maik – Os goleiros do Brasil têm algumas limitações... Nossos atacantes não têm o mesmo potencial de chute dos europeus. É importante o intercâmbio na Europa para que haja, tanto para os goleiros quanto para os demais jogadores, melhora no nível técnico e para que possamos nos adaptar mais facilmente a esse potencial que encontramos em competições internacionais.
Marcão – Em Portugal, tive a oportunidade de conversar com o goleiro da Dinamarca, que tem a estatura não muito maior que a nossa, e ele comentou que durante alguns anos, quando jogava na Espanha, não tinha preparador específico para goleiro e que o treinamento que desenvolvia na época era muito semelhante ao que estamos fazendo hoje. Foi bom conhecer a experiência dele e perceber que estamos no caminho certo. É claro que ainda temos muito que melhorar, para se ter uma idéia um goleiro atinge o auge da sua técnica e experiência aos 32 anos.
AH – Como vocês se posicionam a respeito de doping?
Maik – Nós sempre treinamos de forma saudável, a única coisa que usamos é uma suplementação alimentar, que nos ajuda a recuperar nossas energias. Jamais utilizamos qualquer coisa que influenciasse diretamente nossa performance, velocidade ou ganho de massa muscular. Acho que é uma decisão individual partir ou não para o uso de anabolizantes, mas eu particularmente sou contra, não aconselho a ninguém.
Marcão – Eu acho que anabolizantes trazem transtornos sérios para a estrutura orgânica de qualquer pessoa, e é muito arriscado se lidar com uma coisa que põe em risco sua saúde. Sou a favor de um treinamento saudável, sem a utilização de nenhuma substância. Como o Maik disse, a única coisa que usamos são suplementos alimentares, como carboidratos e aminoácidos, por exemplo.
AH – Que recado vocês deixam para os torcedores de todo o Brasil?
Maik – É muito importante poder contar com o apoio da torcida, nosso esporte não é muito conhecido, mas é muito praticado, e contamos com o apoio de todos para que o handebol possa crescer e se profissionalizar.
Marcão – Eu gostaria de agradecer e pedir que continuem acreditando no esporte e nos incentivando, é muito importante pra nós as manifestações de apoio que recebemos. Recentemente um torcedor do Ceará chamado Ronaldo me enviou uma carta contando as dificuldades que enfrenta para praticar handebol e dizendo que sou um exemplo pra ele, fiquei muito feliz, é muito gratificante esse tipo de manifestação! Um dos objetivos do nosso trabalho é conseguir atingir a profissionalização, para que as próximas gerações possam colher os frutos.
AH – Pra finalizar, o que vocês acham da proposta do site Amigos do Handebol?
Maik – É muito gratificante essa divulgação do handebol, é sinal que nosso esporte está crescendo! Temos falado sobre o site para os nossos amigos, é muito legal para os torcedores e para quem quer conhecer melhor o esporte.
Marcão – É muito legal existir este espaço para que possamos falar do nosso esporte, fico orgulhoso ao ver uma foto ou ler notícias sobre a gente, e saber que pessoas do mundo inteiro podem acessar e conhecer o nosso trabalho. É importante este espaço na internet para que possamos ter um contato mais próximo com os torcedores e divulgar o handebol. O fato dos jogos passarem na ESPN também é um avanço importante, acredito que aos poucos estamos conquistando o nosso espaço.
AH - Agradecemos muito a participação de vocês!
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