ENTREVISTA - PROF. ALBERTO RIGOLO

Por Silvia Marques, com a colaboração de Tarcius Guedes
Junho / 2003


Nome Completo: Alberto Rigolo

Data de Nascimento: 15 / 9 / 1953

Naturalidade: São Paulo - SP

Equipe: Metodista / São Bernardo

Função: Técnico da equipe adulta masculina e coordenador de esportes




AH - Qual a sua trajetória no handebol como jogador e como técnico, e qual a sua formação?

Rigolo -
Comecei jogando na escola, aos 15, 16 anos de idade. Fui convidado para jogar no Clube Atlético Juventus, onde fiquei por dois anos, depois fui para o General Motors Esporte Clube, em São Caetano, onde fiquei também por dois anos. Aos 19 anos fui para o Corinthians, onde joguei até 1976. De lá fui para o Esporte Clube Banespa, onde joguei durante três anos, e lá encerrei minha carreira como jogador, aos 28 anos. Comecei minha carreira de técnico no Banespa, quando me transferi para jogar lá passei a ser técnico das categorias de base. Passei também por Camboriú, Santo André, São Caetano, pelo Bandeirantes, e desde 93 estou aqui na Metodista. Minha formação é em Educação Física, tenho licenciatura plena com especialização em handebol e recreação, e dentro do handebol tenho várias especializações, cursos de atualização, etc. Já fui professor universitário e também na rede pública e particular de ensino, já trabalhei no SESI e hoje trabalho somente na Universidade Metodista, como técnico e coordenador de esportes.

AH - Você foi o fundador da equipe de handebol da Metodista dez anos atrás. Como tem sido esta década?

Rigolo -
A Metodista foi o lugar que melhor me proporcionou condições de realizar um bom trabalho. Começamos aqui em 93 com um duplo objetivo, que era montar uma equipe de rendimento, jovem, que fosse promissora, e também montar uma escola de handebol com um propósito sócio-esportivo, de tirar as crianças da ociosidade. Desde o início contamos com o apoio da prefeitura de São Bernardo, através da secretaria de Esportes, e da Universidade Metodista. Com o tempo o trabalho foi crescendo paralelamente, tanto a escola de esportes quanto a equipe de rendimento, e conquistando novos parceiros. Hoje, dez anos depois, temos o orgulho de dizer que o departamento de esportes já é grande, temos uma escola de esportes que atende mais de mil crianças, temos uma performance técnica muito boa em todas as categorias, temos títulos nacionais e regionais desde a categoria mirim até a adulta, inclusive vários jogadores que saíram da escola de esportes já chegaram à Seleção Brasileira. Foi também através deste trabalho que cheguei à direção da Seleção Brasileira, fui convidado em 96, fiquei até 97, e voltei no início de 2002.

AH - Fale um pouco mais sobre o projeto da Escola de Esportes...

Rigolo -
É um projeto de inclusão social, trabalhamos com crianças de todas as origens, costumo dizer que não é um trabalho com crianças carentes, mas sim com crianças. Desde a criação da faculdade de Educação Física, em 97, é também um projeto de extensão do curso, hoje o departamento de esportes é integrado à faculdade de Educação Física e foi montada a academia-escola, que funciona como laboratório para o curso de Educação física. Aqui os alunos fazem todos os estágios em áreas específicas, como natação, fisiologia, musculação... O espaço atende também toda a comunidade da Universidade.

AH - Quais foram os principais títulos conquistados pela equipe adulta masculina da Metodista?

Rigolo -
São mais de mil (acredito que uns duzentos, talvez) troféus conquistados, não sei precisar ao certo todos os títulos, são vários nacionais, regionais, torneios, amistosos... Fomos seis vezes campeões da Liga Nacional, seis vezes do Campeonato Paulista, quatro Campeonatos Sul-Americanos, quatro Jogos Abertos do Interior, quatro ou cinco Copas do Brasil, seis ou sete Jogos Regionais e por aí vai... Obtivemos também a 6ª colocação no Mundial de Clubes da Áustria e a 3ª colocação no Mundial de Clubes do Qatar, isto na equipe adulta, nas categorias de base é que temos o maior volume de conquistas.


Rigolo (no alto à esquerda) comemora com a equipe da Metodista o Bronze no Mundial de Clubes do Qatar - 2002


AH - Você poderia falar sobre os sistemas táticos que utiliza?

Rigolo -
Eu não separo o sistema tático da habilidade técnica do jogador, na minha visão o que existe é um sistema técnico-tático, onde o treinador deve trabalhar de acordo com os recursos humanos que tem, portanto, o sistema que utilizo na Metodista não seria o mesmo se eu treinasse outra equipe porque ele está diretamente ligado às habilidades dos jogadores. O treinador na minha opinião tem que ser versátil, tem que estruturar a equipe de forma que consiga tirar a melhor performance dos jogadores. Em qualquer esporte coletivo o treinador não pode ter o seu jeito de jogar, a equipe não tem que se adaptar a ele, e sim ele deve adaptar o seu sistema técnico-tático de acordo com seus os atletas.

AH - E como prefere trabalhar no que se refere a defesa?

Rigolo -
Quando falo de sistema técnico-tático me refiro a ataque, defesa e transição de jogo, tanto o retorno defensivo quanto o contra ataque. Tudo isso está diretamente relacionado aos recursos humanos que se tem, altura, peso, velocidade... do seu jogador e do adversário. Sendo assim, cada jogo é uma realidade diferente, depende muito da forma como o adversário utiliza os recursos dele. Se o adversário usa jogadores leves e rápidos no ataque eu defendo de uma maneira, se o adversário usa jogadores altos e fortes eu defendo de outra maneira, às vezes eu troco um jogador meu em função de uma troca que o adversário faz... Normalmente minhas equipes são treinadas para defender com uma, duas ou três linhas defensivas, com defesas mistas, com uma individual, com duas individuais. Hoje a Metodista tem um plantel que está junto desde 97 e desenvolvemos nesse tempo várias formas de atacar, defender e contra atacar. Estes são detalhes que precisam ser percebidos e estudados pelos outros treinadores para que não sejam surpreendidos, eu felizmente tenho tido resultados muito positivos e isso me deixa muito orgulhoso.

AH - No ataque você tem preferência por jogadas rápidas ou por valorizar a posse de bola?

Rigolo -
É muito relativo, depende de como você está jogando e contra quem, e também se você está no início ou no final do jogo. O handebol moderno exige defesas sólidas e contra ataques muito rápidos, mas isso não é uma preferência minha, isso tem sido usado no mundo todo, especialmente na Europa. A tendência hoje é de se jogar handebol de alta velocidade, quanto mais rápido melhor. O problema é que quanto maior a velocidade, mais difícil a execução técnica, a velocidade dificulta a coordenação motora. A velocidade tem sido sim muito importante, mas isso não é uma característica minha e sim do handebol moderno.

AH - O Brasil não utiliza o pivô e o 2º pivô tanto quanto os europeus. O que é preciso ser feito para que o Brasil tenha um maior aproveitamento desses jogadores?

Rigolo -
No último Mundial utilizamos bastante a entrada com dois pivôs, temos tentado desenvolver esse trabalho mas existe um fator defensivo nos nossos adversários que dificulta muito isso, que é a marcação individual de um atleta nosso, que é o Bruno. Quando ele é marcado de forma individual, que é o que acontece via de regra, ficamos com um jogador a menos no ataque e para se atuar com dois pivôs é uma dificuldade maior, nesse caso procuramos abrir mais o jogo para que possamos ter um ataque mais amplo. Um outro fator que na minha avaliação dificulta muito a utilização do pivô e do 2º pivô é a arbitragem no Brasil, que pára muito o jogo com faltas em cima do pivô e do próprio pivô, o contato físico é punido muito rápido e isso faz com que o jogo fique muito seccionado. Na Europa o jogo segue mais, o número de tiros livres contra e a favor do pivô é muito menor e isso faz bastante diferença.

AH - Os pontas têm sido importantes nas finalizações do Brasil. Pretende explorá-los ainda mais?

Rigolo -
Uma das precauções que estamos tendo na convocação da Seleção Brasileira é de contemplar a habilidade técnica e física em todos os setores da quadra. Vamos precisar de jogadores altos, fortes, mas também de jogadores velozes e normalmente os pontas são justamente os jogadores mais rápidos e que têm habilidade para executar uma finalização utilizando um pequeno espaço da quadra, portanto serão muito importantes.

AH - Ainda falando sobre jogos contra equipes européias, como se resolver o problema da defesa? Porque marcando um 6-0 eles são altos e chutam bem de fora, e adiantando a defesa abre-se espaço para o pivô e 2º pivô. O que fazer?

Rigolo -
Esse é um problema muito difícil de se resolver a curto prazo, o que é preciso fazer é trabalhar o handebol nacional de maneira que se priorize o biotipo para que no futuro tenhamos atletas tão altos e tão fortes quanto eles. No momento, o que temos feito é usar uma defesa bem consistente, com uma ou duas linhas e com grande deslocamento lateral e de profundidade. Com relação à potência dos arremessos temos evoluído muito, na época em que eu jogava o Brasil perdia para a Suécia, para a Dinamarca, por 30 gols de diferença, no último Mundial perdemos apertado e com possibilidade de vitória.

AH - Então o porte físico dos jogadores é muito importante...

Rigolo -
Sim, tudo está incluído, o handebol é um esporte de contato físico, é um esporte dinâmico, de velocidade, em que todos os componentes físicos são importantes. Ter entre 1, 90 m e 1, 95 m, e uma massa corporal em torno de 98, 100 kg ajuda bastante, mas nada impede que atletas de 1, 70 m ou 1, 80 m sejam também grandes jogadores. Apesar do porte físico ser importante, há espaço para todos os biotipos no handebol, as dificuldades e a posição em que cada um irá jogar é que serão diferentes. Os altos são importantes para os arremessos com salto, os fortes para a defesa, para sustentar o ataque, e os mais baixos pela velocidade. Temos visto inclusive grandes jogadores com pouca altura, a Suécia tem um jogador considerado um fora de série que tem apenas 1, 65 m.

AH - Observamos que muitas jogadas são armadas visando o Bruno Souza como finalizador. Isso não acaba deixando a Seleção muito dependente dele?

Rigolo -
Isso não é feito, o sistema técnico-tático usado ofensivamente não é direcionado para o Bruno, é direcionado para a busca da superioridade numérica e para a busca do gol. Acontece que o Bruno, por ser um exponencial, acaba finalizando mais, mas o sistema tático não contempla beneficiar o jogo para o Bruno, não.

AH - E o Bruno está confirmado para os Jogos Pan-americanos? Ele já foi liberado pelo clube na Alemanha?

Rigolo -
Sim, ele já está no Brasil e deve se apresentar para a Seleção Brasileira no início de Julho. O Bruno é um jogador totalmente apaixonado pela Seleção Brasileira, gosta muito de jogar na Seleção e tem tido sempre uma atuação positiva dentro e fora da quadra. É importante ressaltar que mesmo ele sendo um jogador diferenciado, um destaque não só aqui como também na Europa, foi eleito recentemente pelo público alemão o melhor jogador na sua posição com 80% dos votos, ele se coloca dentro da Seleção sempre igual aos outros jogadores, se coloca no mesmo nível e acha que tem a mesma importância que os demais. É isso o que o Bruno tem de mais rico, ele se coloca como brasileiro igual aos colegas, passa pelas mesmas dificuldades, está sempre disposto a ajudar... Ele é diferente mas não se enxerga diferente, e esse é o grande mérito dele. Aproveito a oportunidade para parabenizar o Bruno pela sua postura e seu comportamento junto à Seleção.

AH - O Tupan está indo para a Europa. Você acredita que ele também possa despontar lá fora?

Rigolo -
Isso é o futuro que vai dizer... O Tupan é um jogador de velocidade, canhoto, um bom finalizador, é muito disciplinado e tem um grande potencial, tanto que tenho utilizado bastante ele na Seleção, mas se ele será ou não um destaque vai depender muito do que irá assimilar lá, de como irá se adaptar à forma de treinamento, de como irá administrar a saudade de casa, enfim. Se ele não se afetar psicologicamente, acredito que tem tudo para evoluir e crescer bastante.

AH - Falando agora sobre contusões... O número de contusões atrapalhou muito o desempenho do Brasil no último mundial, e quais serão os desfalques para os jogos Pan-Americanos?

Rigolo -
No Mundial tivemos problemas na formação da equipe aqui no Brasil, dois ou três jogadores que pretendíamos utilizar não tiveram condições de viajar porque apresentaram lesões ao final da Liga Nacional. Ao chegar lá tivemos uma lesão no Jardel, que o deixou fora dos treinamentos durante 15 dias e atrapalhou bastante porque é difícil começar os treinamentos já com um atleta a menos. No penúltimo amistoso tivemos uma lesão no Mineiro, que é um jogador canhoto, e isso comprometeu o lado direito da quadra, e no primeiro jogo do Mundial tivemos lesões em outros dois canhotos, o SB e o Tupan. Ter ficado com três canhotos machucados complicou bastante, mas o grupo conseguiu se superar e a performance que tivemos foi bastante produtiva para nós. A forma como fomos respeitados e a pequena diferença de gols nas derrotas foram muito importantes. Para os Jogos Pan-Americanos temos o Sidney, o Agberto e o Léo contundidos, e alguns jogadores voltando de contusão. O Dr. Marcelo Spínola está aqui presente e pode falar melhor sobre isso.

Dr. Marcelo - Os que estão voltando de contusão já estão em uma fase de recuperação muito boa. O Menta tem uma tendinite patelar crônica, ainda precisa de fisioterapia mas já está em condições de jogo, já está em condições de receber treinamento, jogou inclusive as finais do Campeonato Paulista. O Baldacin teve um entorse grau dois no tornozelo, já está fazendo trabalho de salto, de mudança de direção, e também deve se apresentar para a Seleção sem problemas. Já o Agberto, o Sidney e o Léo não estarão em condições. O Agberto teve uma lesão na mão, passou por cirurgia, e além de passar por todo o processo cicatricial ele precisa de uma fase de adaptação para poder novamente ter a empunhadura da bola, fortalecer os músculos do antebraço, portanto o prospecto é de que ele dificilmente se recupere dentro dos próximos 30 dias. O Sidney teve uma lesão completa no ligamento cruzado anterior, no joelho, já passou por cirurgia e terá um período de recuperação de no mínimo 4 meses. O Léo passou pelo mesmo tipo de cirurgia em dezembro, já está jogando, mas ainda está se recuperando no que se refere à força, velocidade, a própria técnica e velocidade de jogo dele precisam ser melhoradas para que ele volte para a Seleção.

AH - O grupo que viaja para Santo Domingo já está mais ou menos definido?

Rigolo -
Estou convocando 17 atletas para treinamento a partir do dia 25 de Junho, desse grupo dois jogadores precisarão ser afastados porque só poderão viajar 15 atletas para Santo Domingo, por limitações nas acomodações. Tive que restringir bastante o grupo e acabei tendo que deixar de fora jogadores muito bons. Temos trabalhado com um grupo de 36 jogadores e qualquer um deles pode ser chamado a qualquer momento, caso haja necessidade em alguma posição.

AH - A Seleção realizará amistosos contra Cuba durante essa última fase de treinamentos?

Rigolo -
A partir do dia 25 realizaremos uma etapa de treinamentos de cinco dias, depois haverá três dias de descanso e voltamos a nos reunir no início de Julho. Faremos uma série de cinco amistosos contra Cuba: dia 13 em São Bernardo do Campo, dias 16, 18 e 19 em Fortaleza, e possivelmente dia 22 em Belo Horizonte. A Seleção permanece reunida até dia 24 de Julho, depois haverá mais três dias de folga e dia 27 embarcamos para Santo domingo. Nossa estréia nos Jogos acontece dia 2 de Agosto. Cuba é uma equipe muito forte mas não participará dos Jogos Pan-Americanos porque não participou dos jogos do centro do Caribe, que eram classificatórios.

AH - O que os torcedores podem esperar da Seleção neste Pan-Americano?

Rigolo -
Estamos numa fase positiva, temos uma geração forte, a infra-estrutura está melhorando a cada dia, a CBHb acabou de fechar um contrato com a Petrobrás que vai ajudar muito o handebol, acredito que o futuro é promissor. Dentro da América podemos estar bastante otimistas, o nosso maior rival é a Argentina, que está num patamar muito próximo do nosso. Que vamos para Santo Domingo para ganhar este campeonato, que vamos com toda a nossa força, toda a nossa energia, procurando superar todas as nossas limitações, isso os brasileiros podem ter certeza. Se vamos voltar campeões ninguém sabe, porque o mesmo objetivo está sendo traçado pelos argentinos e pelos outros concorrentes.

AH - E quais a expectativas contra a Argentina?

Rigolo -
50% para cada um! São duas equipes que quando se encontram, a vitória é por um ou dois gols. Em 99, na semifinal em Winnipeg, ganhamos muito apertado, em 2002, no Campeonato Pan-Americano e nos Jogos Sul-americanos, perdemos por um gol de diferença, portanto é um jogo sem favorito, vai depender do dia, do emocional, das condições físicas, técnicas/ táticas...

AH - Com relação a calendário... Você acha que o calendário da Federação Paulista deveria ser formulado priorizando os compromissos da Seleção, para que não aconteça de uma concentração da Seleção coincidir com a época da semifinal do Campeonato Paulista, como aconteceu este ano?

Rigolo -
Mas isso é feito, a tabela do Campeonato Paulista foi feita com a programação da Seleção Brasileira em mãos, o diretor técnico da Federação Paulista tinha a programação da Seleção e os representantes de todos os clubes paulistas, da Metodista, do Imes, do Pinheiros, do Hebraica, enfim, todos estavam presentes e assinaram a ata concordando que em determinada semana o Campeonato teria um recesso para a realização de uma das fases de treinamento da Seleção. Aconteceu de um dos clubes não autorizar a apresentação de seus atletas alegando que não ter conhecimento da programação da Seleção, mas isso não é verdade porque a Federação tem em sua ata a assinatura de um representante do clube concordando com esse recesso.

AH - A final da Liga Nacional em dezembro foi um dos motivos do grande número de lesões no Mundial, não foi também um problema de calendário?

Rigolo -
Não é uma questão de organização do Calendário, mas sim de adaptação do calendário brasileiro ao calendário europeu. No mês de Julho os europeus estão em férias e nós estamos trabalhando, já no mês de Janeiro estamos em férias e eles estão em meio de temporada. A Confederação vem se esforçando há muito tempo para ajustar esse calendário, mas ainda existe uma resistência por parte dos clubes, que querem ter férias em Janeiro. Eu particularmente acho que deveríamos ter competição na mesma época dos europeus, de Agosto a Junho, para não termos mais esse problema, mas quando se fala em campeonato em Janeiro ninguém quer, portanto isso não é um problema de Confederação nem da Federação, isso é culpa dos dirigentes de clubes que dizem querer se profissionalizar mas colocam outros interesses à frente da profissionalização da modalidade.

AH - A ESPN Brasil realizou recentemente mais um especial sobre doping. Há um médico do interior de São Paulo que desde o ano passado afirma preparar atletas de todas as modalidades, inclusive do handebol. Nesta última ocasião ele afirmou estar dopando atletas para os Jogos Pan-Americanos. Qual é o seu posicionamento, e também do Dr. Marcelo, acerca dessas especulações?

Rigolo -
Bom, já há bastante tempo estou "entalado" com esse médico, na época em que foi realizada a mesa redonda na ESPN sobre esse assunto eu fui convidado para estar lá, mas infelizmente não pude ir por um problema de saúde. Eu só queria que me ele respondesse uma pergunta... Quando ele diz handebol, ele quer dizer todos os atletas ou um ou outro atleta? Se ele está falando de um ou outro, ele que dê os nomes, ele que diga exatamente quem são. Eu não posso afirmar que os políticos do Brasil são corruptos porque não é verdade, temos pessoas íntegras na política, e se há corruptos, eu não posso ir à televisão afirmar isso sem apresentar provas. Se existe algum caso de doping no handebol, ele por favor cite o nome, porque tomamos todas as precauções de orientar, avaliar, dosar, testar nossos atletas e no nosso grupo não tem ninguém, o handebol nunca foi flagrado em nenhum teste.

Dr. Marcelo - Este colega foi muito antiético, há inclusive um processo no Conselho Federal de Medicina contra ele justamente por essa questão de não apresentar nomes. Ele cita que há três atletas de handebol que ele estaria preparando quimicamente, e nós temos confiança no grupo que trabalhamos, conhecemos muito bem os atletas, são atletas orientados, testados, do ponto de vista do doping estamos muito tranqüilos que nossos atletas não se utilizam de nenhuma substância proibida pelo COI.

AH - Na reportagem em questão falou-se que o COB encomendaria exames antidoping somente na iminência de competições internacionais para se fazer uma checagem em tempo hábil para se "limpar" os atletas...

Dr. Marcelo -
Essa não é a nossa experiência, o COB é muito correto, muito severo, o Prof. De Rose, que trabalha no COB, é um dos líderes mundiais no COI na questão do doping e toda a comunidade médica que trabalha no COB tem feito um trabalho muito sério, não de medição pré-competição, mas de acompanhamento dos atletas durante todo o ano. Todos os atletas que são por nós selecionados têm uma ficha no COB e podem a qualquer momento receber uma visita de uma equipe para um teste antidoping, inclusive eu tenho conhecimento de casos em que isso aconteceu. Ao meu ver não procede essa informação de que o Comitê só testa os atletas nas situações de pré-competição.

Rigolo - Com relação ao handebol, com certeza não haverá ninguém flagrado em antidoping, na nossa comissão técnica temos o Dr. Marcelo, fisiologista, e a Prof. Sueli Longo, nutricionista, que fazem esse controle e orientação referente à alimentação e suplementação. Mesmo assim, não basta simplesmente o relacionamento pessoal que temos com os atletas, a orientação que damos, às vésperas do embarque todos serão novamente testados.

AH - É verdade que existem medicamentos que "maquiam" o doping, que enganam o exame?

Dr. Marcelo -
Isso já é doping, as medicações que tentam esconder as substâncias proibidas hoje estão incluídas entre as substâncias proibidas. As mais clássicas são as diuréticas, que aumentam a diurese do atleta a ponto de não ser possível perceber a presença de substâncias na urina. A menos que o médico que acompanha a equipe ateste a razão da utilização do diurético, o atleta ao utilizá-lo está flagrado nesta classe de doping. Hoje é muito difícil esconder qualquer substância do exame antidoping.

AH - O fato dos jogadores dentro do Brasil jogarem sempre entre si e conhecerem bem todos os adversários dificulta o bom desempenho da Seleção lá fora? Mais patrocínio para o handebol poderia resolver isso?

Rigolo -
À medida que nos aprofundamos nessas questões, encontramos coisas mais complexas, mais difíceis de se resolver. Sem dúvida que se tivéssemos 20 clubes em condições de ser campeões brasileiros seria muito melhor para o handebol, porém isso não é possível, estamos num país continente, de dimensão territorial muito grande, com custos muito altos de transporte, acomodação, o que não possibilita a muitos clubes jogar a Liga Nacional. Eu acredito que o tempo pode resolver isso, à medida que os clubes comecem a ter resultado, a aparecer na mídia, mas isso a médio e longo prazo. Acredito que já tenha melhorado muito mas ainda há muito que melhorar.

AH - Em que o handebol melhorou ao longo dos seus anos de experiência? Acredita que se possa de fato chegar à profissionalização?

Rigolo -
Quando eu jogava handebol a modalidade era totalmente desconhecida no Brasil, as pessoas achavam que handebol era futebol com a mão, naquele tempo o objetivo era a popularização do esporte. Hoje todo mundo conhece o handebol, está no currículo de todas as escolas, então o próximo passo é realmente a profissionalização. É essa transição o que está acontecendo agora, hoje os atletas têm ajuda de custo, bolsa de estudos, recursos médicos, fisioterapia, uma série de benefícios que a minha geração não teve. Acredito que essa profissionalização já está acontecendo, porque não meço um profissional por quanto ele ganha, meço um profissional por sua atitude e hoje temos alguns clubes no Brasil com uma atitude muito profissional. Os atletas ainda ganham um salário pequeno, não podem sobreviver financeiramente com o handebol, mas já têm uma atitude profissional.

AH - Normalmente só vemos o handebol em canais locais e a cabo. O que você pensa da ausência do handebol na grande mídia?

Rigolo -
A mídia só dá espaço ao que chama a atenção, ao que é expressivo, então nós do handebol temos que fazer do nosso esporte algo expressivo, e aos poucos isso vem se estruturando, aos poucos as pessoas irão descobrir os resultados do handebol e começar a cobrar esse espaço da mídia. Temos que fazer esse trabalho de divulgação, de marketing, de promover campeonatos atrativos, para dar ao produto handebol uma embalagem que atraia o público, para se tornar também objeto de atenção da mídia.

AH - O handebol paulista tem espaço para os atletas de outros estados que sonham em vir para cá ?

Rigolo -
O Sidney é de Rondônia e é um dos grandes potenciais do Brasil, é um atleta excelente, de uma qualidade técnica apuradíssima, que encontrou o seu espaço. O SB e o Helinho são de Aracaju, o Adalberto é de Minas e por aí afora, há muitos atletas saídos do interior do Brasil atuando aqui. Tem espaço sim, tem oportunidade, mas é preciso correr atrás, fazer acontecer. Apesar de que se eu estivesse no interior do Brasil, tentaria me organizar, formar equipes e campeonatos na minha região.

AH - Muitas pessoas têm dificuldades em estruturar equipes por falta de condições, algumas não conseguem nem uniforme. Seria viável a Metodista apoiar equipes de outros estados?

Rigolo -
Não posso dizer se seria possível porque é um fato que ainda não aconteceu, nunca fomos procurados com uma proposta desse tipo. O que posso dizer é que já damos apoio distribuindo nosso know-how, recebemos em várias épocas do ano técnicos, professores e jogadores que passam alguns dias aqui conhecendo melhor o nosso trabalho. Mas quanto a ter uma outra equipe, uma franquia ou algo assim, só seria possível se recebêssemos uma proposta de algum lugar. Se a equipe ou a cidade trouxesse parcerias, poderíamos estudar entrar com parte do investimento, contribuir com know-how, enfim. Não vou ficar me oferecendo para resolver o problema do handebol brasileiro, mas se formos procurados vamos estudar a proposta com muito carinho.

AH - Baseado na sua experiência e no sucesso obtido na Metodista, que conselho você daria a professores e técnicos que encontram tantas dificuldades?

Rigolo -
Não existe uma fórmula, eu tive a sorte e o privilégio de encontrar uma instituição que me dá apoio, que me dá carta branca, que me permite o erro. Quem sou eu para dar conselho, mas se pudesse aconselhar alguém eu diria aquilo que deu certo aqui, que foi a busca de parcerias, a franqueza, a sinceridade, a verdade a qualquer preço, doa a quem doer, e aplicar o real significado da palavra perdão. As pessoas precisam conviver com suas diferenças, cada um com a sua verdade, a minha verdade pode não ser a mesma que a sua, mas isso não significa que não possamos nos respeitar e viver em harmonia. O que buscamos na Universidade Metodista, através do departamento de esportes, é a convivência de diferentes, isso tanto na escolinha de esportes quanto na equipe de alto rendimento, e quando atingimos esse objetivo a performance vem muito mais fácil. É complicado mas é o nosso grande desafio enquanto cristãos.

AH - Você é da religião Metodista?

Rigolo -
Sim, com muito orgulho. Venho de uma família católica, mas nunca fui praticante. Quando vim trabalhar aqui, ninguém perguntou a minha religião, nunca senti nenhum tipo de pressão. Com o passar dos anos e com o crescimento dos meus filhos, tenho um filho de 10 anos e um de 7, comecei a me preocupar com o aspecto religioso, em passar uma crença para os meus filhos, e o comportamento dos metodistas passou a me chamar a atenção. Passei a freqüentar a Igreja e a me tornar praticante há cerca de três anos, a Metodista me aceitou como eu sou, é uma religião aberta ao diálogo e que visa a evolução do ser humano e estou muito feliz, fiz grandes amigos aqui.

AH - Qual a importância do bom relacionamento dentro da equipe? O bom entrosamento é tão importante quanto a qualidade tática e técnica da equipe?

Rigolo -
Essa é a base do meu trabalho, eu escolho primeiro o homem, depois o atleta, se o jogador é bom atleta mas não é bom homem, não pode jogar handebol comigo. Aqui na Metodista tenho carta branca para essa decisão, avaliamos a conduta extra-quadra e a convivência do grupo. O que trabalhamos junto da psicologia esportiva e que é muito importante e contribui para a nossa união, é a homogeneização do grupo. A técnica que usamos aqui no clube, e que estamos tentando implantar na Seleção, é fazer o que manda o dito popular, fecham-se as portas e lava-se a roupa suja, e quando se sai dali estão todos fortalecidos, mais amigos, ninguém sai falando um do outro. Considero a honestidade e a sinceridade muito importantes. Na Seleção não tenho tempo para fazer o mesmo tipo de trabalho, porém temos tido um progresso muito grande nesse sentido. Apesar de dentro da quadra sempre ter havido muito respeito e profissionalismo, posso dizer que temos conseguido fortalecer o vínculo de amizade fora da quadra, alguns atletas que não tinham afinidades uns com os outros, ou mesmo comigo ou com a comissão técnica, estão menos resistentes. Por sinal, abro um parêntesis para dizer que não temos nenhum problema de indisciplina, insatisfação, não tive que administrar nenhum desentendimento, o grupo está muito coeso. Me lembro muito bem que quando o Felipe Scolari usou o termo "Família Scolari" foi muito criticado, mas os resultados mostraram a importância desse trabalho. Minha forma de trabalhar sempre foi essa e quero até plagiar o Scolari, dizendo que o que busco é a formação de uma família. Temos nossas diferenças, cada um pensa de uma forma diferente, mas convivemos muito tempo juntos, foram 40 dias na Europa no começo deste ano, então temos que buscar a harmonia.

AH - Quais são as características mais importantes no atleta de handebol?

Rigolo -
Em primeiro lugar, tem que amar o que faz e se dedicar de corpo e alma. O atleta tem que amar o esporte e ser resistente à dor, porque a dor do atleta é uma dor pesada, todo atleta vai dormir todo dia com dor, o treinamento causa dor. Uma frase de Oscar Schmidt, que na minha opinião é um dos maiores atletas que o Brasil já teve, é que quando o atleta vai dormir sem dor, ele não evoluiu. Outro conselho que eu daria para qualquer praticante de qualquer esporte é que nunca troque seu estudo, sua formação, para se dedicar unicamente a um esporte porque a vida do atleta é curta e o atleta precisa ter uma profissão quando pára de jogar. O melhor colchão para um indivíduo é o estudo, porque todo mundo cai um dia, mas se você tiver um colchão resistente em baixo, consegue se reerguer.


Rigolo (à direita) recebe premiação da Federação Paulista de Handebol


AH - Para finalizar, que recado você gostaria de deixar para os torcedores da Metodista e para todos que acompanham a sua trajetória?

Rigolo -
Para os torcedores da Metodista, só tenho uma coisa a dizer... Muito obrigado, a eles fica o meu carinho e meu agradecimento. Para os torcedores dos outros clubes, desejo também boa sorte, mas nunca se esqueçam de fundamentar o seu trabalho na verdade e valorizar o perdão, que é a palavra mais importante do dicionário. Eu gostaria também de finalizar com um desabafo, muitas pessoas dizem que a Metodista só ganha porque tem dinheiro, que o Alberto não sabe nada de handebol, que só ganha porque tem o melhor time, mas ninguém vê a minha história, que eu tenho 27 anos de formado, que antes de trabalhar na Metodista eu trabalhei em 10 clubes. Quando comecei no Banespa, já tinha uma escolinha de esporte com 250 crianças, e naquela época, em 1979, 1980, formamos no Banespa, eu e o Prof. Odimar de Moraes, vários atletas para a Seleção Brasileira, entre eles o De Simone, que hoje é comentarista da ESPN. Quando a Metodista começou não tinha a estrutura que tem hoje, não começou com os medalhões que tem hoje, os medalhões viraram medalhões aqui, os únicos que já vieram prontos, que já entraram aqui medalhões foram o SB e o Cubano, os outros todos se formaram aqui. O Agberto, por exemplo, começou a jogar aqui aos 18 anos, era um grande potencial, e se desenvolveu aqui. Então não é só sorte, não é só dinheiro, é trabalho e dedicação durante todos esses anos. Começamos com uma estrutura pequena, com pouca verba, e cresceu por que? Por sorte? Não... Foi uma gestão administrativa competente e transparente que fez com que novos parceiros acreditassem na gente e a estrutura crescesse. Nosso crescimento é resultado do trabalho de toda uma equipe, eu, o Prof. Márcio de Moraes, o Edu, o Toto, todos os atletas que estão aqui e que já passaram por aqui, e tantas outras pessoas que acreditaram e contribuíram para a construção do departamento de esportes que temos hoje. Estou cansado de ouvir que só ganhamos porque temos dinheiro, porque temos sorte. Se temos dinheiro é porque corremos atrás desse dinheiro, e sorte todo mundo tem, sorte é o barulho do despertador tocando de manhã, esse é o barulho da sorte, só que enquanto há pessoas que preferem desligar e continuar dormindo, eu levanto e vou trabalhar. Às vezes todos os clubes estão de férias e eu estou aqui trabalhando, correndo atrás de apoio, de patrocínio, de melhoria da infra-estrutura. Gostaria de me desculpar antecipadamente se disse alguma coisa que desagradou ou magoou alguém, mas estou falando de forma franca, mostrando quem eu sou, estou dizendo a minha verdade, e a minha verdade não é melhor que a de ninguém, somos apenas diferentes.


AH - Agradecemos muito a participação e a atenção do Prof. Alberto Rigolo, assim como do Dr. Marcelo Spínola, médico fisiologista da Seleção Brasileira Adulta Masculina, que participou em alguns trechos desta entrevista.


* Para maiores informações sobre o trabalho desenvolvido pelo Departamento de Esportes e pela equipe da Metodista/São Bernardo, escreva para:

HANDEBOL@METODISTA.BR




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