ENTREVISTA - SANTO BALDACIN
Silvia Marques, com a colaboração de Daniel Baldacin - Dezembro / 2003

Nome Completo: Santo Baldacin Neto
Data de Nascimento: 28 / 5 / 1940
Naturalidade: Conchas - SP
Histórico: : Esporte Clube Pinheiros, Clube Internacional de Santos e Esporte Clube Santo André, além do Esporte Clube Sírio, como veterano
AH - Como o senhor descobriu o handebol e quando começou a jogar?
Santo Baldacin - Descobri o handebol quando ingressei na Escola de Educação Física da USP, em 1962. Comecei a jogar nessa época, aos 22 anos. Meus primeiros jogos foram campeonatos populares e universitários, defendendo a escola. Em seguida, fui convidado a jogar pelo Pinheiros, como sócio militante.
AH - Qual foi a sua trajetória e como era o handebol na época em que jogava? (rotina de treinos, estrutura e condições para os atletas)
Santo Baldacin - A minha trajetória como jogador foi curta, pouco mais de dez anos. O handebol da época era baseado na habilidade individual dos jogadores, pois treinávamos apenas duas vezes por semana, em uma quadra descoberta de 50m x 25m. Meus companheiros de equipe eram, em sua maioria, universitários e, como eu cursava Educação Física de manhã e à tarde trabalhava como carteiro, estava sempre melhor preparado fisicamente. Meu primeiro jogo oficial pelo Pinheiros foi em 1963, de handebol de campo, do qual seríamos pentacampeões posteriormente. Ao mesmo tempo, jogávamos em quadra o Campeonato Paulista. Normalmente os jogos eram realizados em quadra descoberta aos domingos pela manhã. A estrutura do esporte na época era muito fraca, os clubes sequer davam material de treino ou qualquer outro auxílio, jogávamos puramente por amor ao esporte.
AH - O senhor se destacou nas equipes em que jogou? Foi atleta de Seleção?
Santo Baldacin - Fui atleta da Seleção Brasileira e da Seleção Paulista Universitária. Fui artilheiro dos Jogos Universitários de Fortaleza, com 69 gols em 6 jogos, e dos Jogos de Belém, com 80 gols em 7 jogos. Fui considerado o melhor atleta universitário do Brasil em 1972 e Campeão Universitário da FUPE, além de várias vezes Campeão Paulista Adulto. Recentemente, fui eleito um dos mil maiores esportistas do século 20, em pesquisa realizada pela revista Isto É.
AH - Na época, os jogadores atuavam em todas as posições?
Santo Baldacin - Como tínhamos poucos jogadores, alguns mais habilidosos treinavam em todas as posições, apenas dois ou três jogavam sempre na mesma posição.
AH - Quando o senhor parou de jogar? Por que?
Santo Baldacin - Parei de jogar oficialmente em 1974, porque comecei a trabalhar no período da manhã, tarde e noite, portanto não tinha mais tempo para treinar.
AH - As histórias de que o senhor chegou a quebrar traves e o dedo de um goleiro são verdadeiras ou há um pouco de exagero? Dizem que o seu arremesso era muito potente...
Santo Baldacin - A história de quebrar traves é verdadeira, pois, como disse, jogávamos em quadras descobertas e as traves ficavam expostas ao sol e à chuva, e acabavam perdendo a resistência. O meu arremesso realmente era muito forte e, na tentativa de defesa, um goleiro teve sua mão prensada entre a trave e a bola, o que infelizmente levou à fratura de um dedo.
AH - Chegou a receber alguma proposta para jogar no exterior?
Santo Baldacin - Não recebi propostas do exterior porque comecei a jogar um pouco tarde.
AH - Depois de parar de jogar, o senhor continuou ligado diretamente ao handebol? Já foi técnico?
Santo Baldacin - Ainda quando jogava, já me dedicava a ensinar a modalidade nas escolas de 1º e 2º grau e conquistei o título do Campeonato Colegial Estadual com o Colégio Alberto Conte. Depois de deixar as quadras, continuei a trabalhar com o handebol, como professor universitário nas Escolas de Educação Física de Tatuí, Mogi das Cruzes, Santo André e São Caetano. Também tenho alguns cursos internacionais, realizados na Alemanha, França e Romênia. Após esses estágios técnico-pedagógicos, passei a ser convidado a ministrar cursos em praticamente todos os estados brasileiros. Fui técnico do Esporte Clube Corinthians Paulista entre 1977 e 1978, da Seleção Paulista Estudantil e Adulta, e supervisor da Seleção Brasileira em 1980 (Jogos Pan-Americanos do México). Hoje, dou alguns cursos pela Secretaria de Esportes e Turismo de São Paulo quando sou convidado. Já estou aposentado, mas gostaria de ainda estar lecionando. Infelizmente, as faculdades hoje exigem que se tenha mestrado ou doutorado e valorizam mais um diploma do que a experiência.
AH - E o senhor não está envolvido de alguma forma com o handebol de categoria sênior?
Santo Baldacin - Não mais. Eu tentei montar um campeonato para a categoria junto à Federação Paulista, mas não consegui fazer com que acontecesse, não houve mobilização para adaptar as regras e regulamentos e acabei desistindo.
AH - O senhor foi treinador no Palmeiras? Como foi essa passagem pelo futebol?
Santo Baldacin - Fui preparador físico na Sociedade Esportiva Palmeiras de 1968 a 1971. Só havia eu para preparar toda a equipe, portanto dava treinamento geral e para goleiros. Minha passagem pelo futebol foi muito boa porque o Palmeiras conquistou diversos títulos no período em que estive lá. Fomos campeões do Torneio Ramón de Carranza, na Espanha, em 1969; campeões do Torneio Roberto Gomes Pedrosa; vice-campeões da Taça Libertadores da América e vice-campeões do Campeonato Paulista.
AH - O técnico Alberto Rigolo foi seu aluno e seu filho, Daniel, é um dos jogadores da Seleção campeã Pan-Americana.Como foi acompanhar a vitória histórica do Brasil no Pan?
Santo Baldacin - O Alberto foi meu aluno em São Caetano, e era também meu assistente. Eu tinha consciência de sua capacidade, pois quando eu viajava para ministrar cursos fora de São Paulo ele assumia a cadeira com muita competência. O Alberto foi um excelente aluno e professor, e hoje é um excelente técnico. O meu filho, Daniel, como jogador da Seleção e ouro em Santo Domingo me dá muito orgulho, fico honrado pelo seu êxito. Na vitória do Pan, assisti ao 2º período e à prorrogação pela TV, e quase entrei dentro dela de tanto que torci por essa vitória!
 Daniel Baldacin, Alberto Rigolo e Santo Baldacin (Foto: FPH)
AH - Na sua época de jogador, imaginava que o Brasil seria o número um das Américas, classificado com méritos para as Olimpíadas?
Santo Baldacin - Eu sempre acreditei no handebol do Brasil e me dediquei durante os meus 40 anos de handebol para que um dia nos classificássemos para as Olimpíadas dentro de quadra, mas não esperaria que o meu filho estivesse lá, juntamente com o meu melhor assistente.
AH - Com toda a sua experiência, ao ver o seu filho jogar, procura orientá-lo, dar opiniões, ou prefere não interferir?
Santo Baldacin - No início da carreira do Daniel, eu dava assistência em alguns treinos, procurava corrigir alguns movimentos e também o acompanhava nos jogos. Quando ele foi convocado pela primeira vez para a Seleção Estudantil, algumas pessoas disseram que a convocação havia sido influência minha e por isso achei melhor me afastar um pouco. Continuei orientando, mas de longe. O Daniel conseguiu chegar onde está pelos seus próprios méritos, pela sua personalidade, raça e vontade de vencer. Como já disse, é motivo de muito orgulho e satisfação para mim.
AH - Como o senhor descreve a evolução do handebol ao longo de todos esses anos? Acredita que seja possível medir forças com equipes européias num futuro próximo?
Santo Baldacin - O handebol brasileiro evoluiu muito a partir dos anos 70, quando foi incluído nos jogos estudantis e universitários brasileiros, e também quando professores passaram a fazer cursos no exterior e aplicar os seus conhecimentos nas suas equipes. Além disso, nós, jogadores, batalhávamos pela divulgação do esporte, íamos às estações de rádio e televisão divulgar os jogos e convocar os torcedores. Hoje, para o Brasil sonhar em medir forças com equipes européias, precisa investir mais em experiência para os nossos atletas e ampliação na divulgação em todo o Brasil. Atualmente, a confederação conta com a verba do COB e com o patrocínio da Petrobrás, e com isso teria condições de trazer equipes européias para amistosos aqui. No início da década de 70, mesmo sem recursos e sem uma confederação, conseguíamos trazer clubes europeus para disputar torneios contra equipes brasileiras. Em 1972, trouxemos o Gummersbach, campeão europeu em 1967, 1970 e 1971, para disputar dois amistosos contra o Pinheiros. Fomos até a antiga TV Gazeta, convocamos a torcida e conseguimos colocar 20 mil pessoas no Ginásio do Ibirapuera! Em 1975, trouxemos o Grün Weiß Ferdinandshof. Seria excelente se Seleções de ponta, como a Espanha ou Suécia, viessem fazer uma turnê no Brasil, porque nossos jogadores só irão aprender jogando contra adversários mais fortes. Mandar nossa Seleção para fora é bom, mas ter equipes desse nível jogando aqui seria ainda melhor porque atrairia a atenção da mídia e do público para o handebol. O handebol brasileiro ainda precisa crescer muito, precisa ter 30 equipes fortes em competição.
AH - Apesar do Brasil ser Campeão Pan-Americano, ainda possui falhas importantes no que se refere a organização e calendário. Que atitudes deveriam ser tomadas, na sua opinião, para se resolver esses problemas?
Santo Baldacin - Hoje o esporte está mais organizado, pois tem mais verbas e patrocinadores, o calendário melhorou muito, mas ainda há muito que se fazer, ainda há muita política envolvida. O próprio fato da confederação ter sua sede no nordeste, sendo que a maior parte dos clubes está no sul e no sudeste, é fruto dessa política. Além disso, os atletas deveriam ter uma assistência mais regular, não somente em época de Seleção. Não digo isso porque meu filho está na Seleção, mas porque é uma realidade, os atletas precisam treinar diariamente e se dedicar inteiramente ao esporte para conseguirem manter um rendimento de alto nível, e sendo assim, não conseguem conciliar os treinos com um outro trabalho, portanto a confederação deveria dar assistência para esses jogadores, um salário, assistência médica, ajudá-los na obtenção de patrocínio, enfim, dar subsídios para que possam treinar tranqüilamente. Hoje, os atletas que representam o Brasil ainda dependem unicamente do que os seus clubes proporcionam, o que não é justo. Os atletas acabam passando por dificuldades para conseguirem realizar os seus sonhos.
AH - O senhor é favorável à adequação do calendário brasileiro ao europeu, ou seja, iniciar nossa temporada em agosto e terminar em maio?
Santo Baldacin - Sim, acho que seria viável e muito importante para o desenvolvimento do esporte. Facilitaria, inclusive, a realização de intercâmbios e torneios com equipes européias, pois o ideal é que ocorram justamente no período de férias. Se quando os europeus estão de férias nós estamos em meio de campeonato, fica muito mais difícil. E se pensarmos bem, não existe um frio rigoroso no Brasil, não seria tão ruim ter férias no meio do ano, basta viajar para o norte ou nordeste do país para fugir do inverno.
AH - Poderia falar um pouco sobre os veteranos do handebol, que, ao seu lado, foram os precursores da modalidade no Brasil?
Santo Baldacin - Muitas pessoas lutaram muito pelo handebol nas décadas de 50, 60 e 70, e acabaram sendo esquecidos pela confederação e pela federação. São professores e jogadores excelentes que se dedicaram ao handebol quando não havia espaço nenhum. Treinavam à noite, em quadra de cimento, descoberta, puramente pelo amor ao esporte, não ganhavam nada para isso. Entre muitos, posso destacar o professor Antonio Boaventura, que trouxe conhecimentos da França e aplicou aqui, e o húngaro Paulo Nagi, que veio para o Brasil e dedicou sua vida ao handebol. Quando comecei a jogar, na década de 60, ele já trabalhava com todas as categorias, e também nunca ganhou nada para isso. O Brasil precisa valorizar mais o trabalho e o esforço dos veteranos do handebol, pois sem eles jamais chegaríamos a ser campeões Pan-Americanos e ter a geração de talentos que temos hoje.
AH - O senhor foi e continua sendo ídolo e inspiração para muitos jovens jogadores. Que mensagem deixaria para eles e que conselho daria para os que estão iniciando?
Santo Baldacin - Agradeço o carinho que os jovens atletas me dão, como ídolo e inspirador. Aos que estão iniciando no handebol, digo que devem ter muito amor pelo que estão fazendo, respeitar os colegas e os adversários, jogar sempre com o coração alegre e ser sempre um amigo para as melhores e piores horas.
AH - Obrigado pela entrevista, e aproveitamos a oportunidade para agradecê-lo pela sua contribuição para o crescimento do handebol brasileiro!
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