ENTREVISTA - SB

Silvia Marques e Tarcius Guedes - Junho / 2003



Nome Completo: José Ronaldo do Nascimento

Data de Nascimento: 16 / 3 / 1966

Altura: 1, 84 m

Peso: 90 kg

Naturalidade: Aracaju - SE

Posição: Armador direito / Ponta direita

Equipe: Metodista / São Bernardo


SB em ação contra a Argélia, durante o último Mundial


AH - Onde e como você começou a jogar e em que clubes jogou até chegar à Metodista?

SB -
Comecei a jogar no colégio, disputando os Jogos da Primavera, que eram competições entre colégios que aconteciam em Aracaju. Comecei aos nove anos de idade, praticando várias modalidades, como ginástica olímpica, atletismo, voleibol e também handebol, mas com a prática fui me adaptando e gostando mais do handebol. Em 82 passei a fazer parte da Seleção Sergipana, disputei os Jogos Escolares Brasileiros em 82, 83 e 84. Passei então a jogar no Iate Clube de Aracaju, disputei alguns campeonatos nacionais, e em 86 fui para Chapecó, Santa Catarina. Joguei na Sadia de 86 a 88, com o final da equipe passei a atuar pela cidade de Chapecó até 99, quando transferir para a Metodista.

AH - Quando foi sua primeira convocação para a Seleção Brasileira?

SB -
Em 84, fui convocado para disputar o Campeonato Sul-Americano Júnior, que aconteceu em Caxias do Sul. Na ocasião ficamos com o 1º lugar.

AH - De onde surgiu o apelido SB?

SB -
SB é de Seleção Brasileira. Por volta de 86, um colega meu, chamado Acácio, que jogava comigo na Sadia, começou a me chamar assim e pegou. Hoje muita gente nem sabe o meu nome, só me conhece por SB, fico muito feliz com esse apelido e espero ainda ser chamado de SB por muito tempo!

AH - Quais os principais campeonato e títulos que você conquistou com a Seleção Brasileira?

SB -
Olimpíadas de Barcelona 92 (12º lugar) e Olimpíadas de Atlanta 96 (11º lugar). Mundial da Itália 87, Mundial da Islândia 95, Mundial da França 2001 e Mundial de Portugal 2003 (não estive nos Mundiais do Japão em 97 e do Egito em 99, porque pedi licença da Seleção por motivos particulares). Jogos Pan-Americanos de Indianápolis 87 (3º lugar), Jogos Pan-Americanos de Havana 91 (2º lugar) e Jogos Pan-Americanos de Mar del Plata (2º lugar). Disputei também inúmeros Campeonatos Sul-Americanos e Pan-Americanos.


SB ataca contra o Uruguai, durante os Jogos Sul-Americanos - 2002


AH - Você considerou boa a participação do Brasil no último Mundial?

SB -
Com certeza, foi uma das melhores que participei. Não fomos bem em termos de resultados, mas em qualidade de jogo achei muito bom, aconteceram situações em que não ganhamos por detalhe. Tivemos um pouco de azar com relação às lesões, muitos atletas se machucaram, eu mesmo fui um deles. Outra coisa que prejudicou foi o nosso calendário não coincidir com o calendário Europeu. Competir com as melhores equipes do mundo um mês depois da final da temporada aqui no Brasil é quase impossível.

AH - Qual foi o adversário mais difícil que o Brasil enfrentou no último Mundial, na sua opinião? Qual defesa foi a mais difícil de vencer?

SB -
Eu joguei apenas duas partidas, contra a Argélia e quinze minutos contra a Dinamarca. Assistindo de fora considerei a defesa da Suécia a mais difícil de ser superada devido à experiência dos jogadores. Apesar deste ano a Suécia não ter tido resultados muito expressivos, é uma escola de muita tradição, sempre chegando entre os três primeiros colocados em Campeonatos Mundiais e Olimpíadas.

AH - Quem é o melhor jogador de handebol do mundo atualmente, na sua opinião?

SB -
Há vários jogadores muito bons, é difícil apontar um nome. O próprio Bruno Souza, que atualmente está jogando na Alemanha, para mim está entre os melhores. Ele está jogando muito, isto é muito bom para o Brasil, ter um jogador despontando dessa forma. Outro que considero excelente é o Stefan Lövgren, da Suécia.

AH - Assistindo aos jogos do Mundial observamos que nas equipes européias há vários jogadores na sua faixa de idade. Por que você acha que no Brasil isso é incomum? Por que o atleta brasileiro não tem a mesma longevidade?

SB -
Isso acontece principalmente por causa do amadorismo do handebol no Brasil, a modalidade não é tratada como um esporte profissional. Na Europa é muito diferente, existem muitos clubes, muitas ligas. Na Alemanha, por exemplo, existem 1ª, 2ª, 3ª 4ª e 5ª divisões. Essa estrutura motiva o atleta a permanecer no esporte por mais tempo. Aqui no Brasil chega um ponto em que o atleta precisa optar entre uma carreira profissional e o esporte. No meu caso, consegui conciliar as duas coisas: atuo na área de Educação Física e sou atleta.


SB marcando atacante espanhol, durante o Torneio de La Coruña - 2003


AH - Você trabalha na própria Metodista? Quando decidir parar de jogar pretende se estabelecer como técnico?

SB -
Eu tracei o objetivo de conseguir chegar a mais uma Olimpíada, que seria a de Atenas, ano que vem. Depois disso acredito que deixe a Seleção, mas com relação ao clube devo continuar a jogar até quando estiver bem fisicamente. Profissionalmente, eu já atuo numa área que gosto, que é a de ginástica laboral, atividade dentro de empresas visando a qualidade de vida dos funcionários. Estou também na coordenação de esportes da Metodista como coordenador de escolinhas, que são um projeto social realizado em parceria com a prefeitura de São Bernardo do Campo. Também sou técnico da categoria juvenil masculina.

AH - Fale um pouco mais sobre o projeto da Escolinha de Esportes...

SB -
Quando cheguei na Metodista este projeto já havia sido implantado. No ano passado, o técnico Alberto Rigolo me colocou como coordenador. O projeto atende várias localidades, como a RECAP (Refinaria de Capuava), comunidades das proximidades e também algumas equipes de categorias de base. No total são cerca de mil crianças praticando esporte e se integrando à sociedade. Com certeza a criminalidade diminuiria bastante se houvessem mais projetos desse tipo no nosso país.

AH - Haverá alguma mudança na equipe da Metodista para esta temporada?

SB -
Não teremos nenhuma mudança radical. Continua basicamente o mesmo grupo, no Adulto somente saiu o pivô Alexandre e subiram alguns jogadores da categoria Júnior. Estamos treinando forte e procurando bons resultados, esperamos não ter problemas com lesões como ocorreu ano passado, que atrapalhou bastante.

AH - Vocês pretendem aplicar na equipe algo que tenham aprendido no último Mundial?

SB -
Ah, sim... Com certeza. Em todos os campeonatos internacionais que disputamos procuramos adquirir conhecimentos e tentamos pôr em prática no handebol brasileiro, justamente para desenvolver a modalidade e quem sabe conseguir atingir um nível mais competitivo perante os europeus.

AH - E você acredita que o handebol brasileiro tem progredido, não apenas taticamente, mas também em termos de divulgação e patrocínio?

SB -
O desempenho da Seleção tem mostrado que estamos conseguindo nos aproximar cada dia mais do handebol europeu. Com relação a apoio, no entanto, o Brasil ainda está longe do ideal, é preciso que empresas acreditem na modalidade e invistam. O papel da mídia também é importante para o nosso crescimento, temos a ESPN que transmite nossos jogos mas infelizmente poucas pessoas têm acesso à TV a cabo, se tivéssemos um espaço maior na TV aberta, atingiríamos um público maior e surgiriam também maiores possibilidades de patrocínio.

AH - Você acha que é por causa da falta de investimento que a participação do Brasil em Olimpíadas é sempre tão modesta?

SB -
Com certeza. Podemos comparar o Brasil com Cuba, por exemplo, que é uma ilha pequena e tem um desempenho muito superior ao do Brasil em Olimpíadas. Nosso país deixa muito a desejar nesse ponto, faltam investimentos em esporte, educação e projetos sociais. É complicado obter patrocínio no Brasil, os atletas e as equipes só começam a receber apoio faltando pouco tempo para as Olimpíadas, o que é muito errado, essa ajuda da iniciativa privada e do próprio governo deveria ser constante.

AH - Os patrocinadores brasileiros seriam, de certa forma, oportunistas? Só querem associar suas marcas a esportes já consagrados?

SB -
Sim, prova disso é que sempre se vê atletas que ganham medalhas em Olimpíadas ou campeonatos mundiais fazendo propagandas na TV. É muito difícil uma empresa se propor a apoiar um esporte que ainda não tem tanta projeção e apostar no seu crescimento. Em todas as modalidades o Brasil tem ótimos atletas, mas a maior parte não se desenvolve justamente por essa falta de investimento.

AH - O sonho de todo atleta é ir para as Olimpíadas. Você já esteve em duas, como é essa experiência?

SB -
Quando comecei a jogar nunca imaginei que chegaria tão longe, que participaria de todas as competições existentes no mundo. Ir para as Olimpíadas é uma experiência maravilhosa, resultado de muito trabalho e de muito amor ao handebol. Numa determinada época da minha vida tracei um objetivo de conseguir chegar às Olimpíadas, graças a Deus consegui ir a duas e estou tentando agora ir para a terceira!

AH - Além de você, algum outro atleta da atual Seleção Brasileira já esteve em Jogos Olímpicos?

SB -
Que eu me lembre, o China e o Macarrão estiveram em Atlanta. Do grupo que esteve em Barcelona eu sou o único que permanece.

AH - Sobre as Olimpíadas de Atenas, ano que vem... Como está sendo a preparação e o trabalho para conseguir a classificação?

SB -
Nosso principal objetivo é o Pan-Americano em agosto, o qual vai definir a vaga Olímpica. O trabalho com a Seleção permanente já tem quase um ano e meio visando esta classificação, nesse período cerca de quarenta jogadores já foram convocados e treinaram com a Seleção. Acredito que a base da equipe que representará o Brasil será a mesma que esteve no Mundial, com algumas alterações, podendo acontecer devido a lesões e também dependendo da fase de cada jogador. A Seleção tem se reunido e realizado trabalhos de avaliação física, está tudo correndo bem e temos consciência da responsabilidade de superar a Argentina, que tem vencido o Brasil nos últimos anos.


SB enfrenta a marcação Argentina durante os Jogos Sul-Americanos - 2002


AH - A Seleção Argentina chega a treinar diariamente algum tempo antes dos campeonatos e no Brasil isso não é feito. Você acha que essa diferença na intensidade de treinamentos pode ser decisiva?

SB -
Pode fazer diferença sim, mas é complicado fazer um trabalho assim no Brasil. Já houve época em que a Seleção treinava diariamente meses antes de uma competição, mas a realidade é complicada porque o esporte é amador e vários jogadores têm outros compromissos, não têm disponibilidade. No entanto, em nosso planejamento este ano temos várias fases e há também a possibilidade de talvez realizarmos uma série de amistosos contra Cuba antes do Pan-Americano.

AH - Qual o esquema defensivo mais eficaz na sua opinião?

SB -
Depende muito das características dos jogadores envolvidos. A Seleção Brasileira joga atualmente num 5-1, porque se jogarmos contra uma equipe européia, com jogadores muito altos, não podemos jogar 6-0, fica muito fácil o adversário arremessar por cima.

AH - Com relação ao ataque, você considera mais importante uma equipe bem treinada, que valorize a técnica, ou a criatividade dos jogadores?

SB -
Tanto a técnica quanto a criatividade são importantes. Um atleta criativo pode definir uma jogada, então o ideal é que os jogadores tenham esse talento mas que também tenham habilidade técnica e dominem todos os fundamentos, finta, arremesso em suspensão, com apoio, etc. É muito difícil superar uma defesa européia sem o total domínio de todas essas técnicas.

AH - Você é um jogador canhoto. Considera esta característica importante?

SB -
O jogador canhoto é mais difícil de ser marcado, em todas as modalidades, não apenas no handebol. Me ajudou ser canhoto porque são poucas as pessoas com esta característica e acaba sendo um diferencial importante porque o adversário perde um pouco a referência, é necessário treino e experiência para se marcar bem um canhoto. Eu gosto muito de ser canhoto, mas na verdade gostaria de ser ambidestro!

AH - Como é a sua rotina, sua alimentação e o que você faz para se manter em forma durante todos esses anos?

SB -
Muitas pessoas se assustam por eu continuar jogando aos 37 anos! Eu sempre me cuidei, não bebo, não fumo, sempre adorei treinar e sempre cuidei da minha alimentação. Também sou muito perfeccionista, se estou acima do peso procuro perder, se estou abaixo, procuro aumentar... Se o atleta se cuidar bastante consegue jogar e manter o bom rendimento por muito tempo, até a faixa dos 40 anos, um exemplo disso é o jogador de basquete Oscar. É claro que durante a carreira o atleta passa por várias contusões, é normal num esporte de alto rendimento. Felizmente eu nunca tive nada grave que me afastasse das quadras.

AH - Qual o seu posicionamento a respeito de doping?

SB -
Sou totalmente contra, nunca precisei tomar substâncias proibidas pra conseguir treinar ou melhorar o meu rendimento dentro da quadra. O que nós utilizamos são suplementos alimentares que atletas de alto rendimento precisam, mas tudo de maneira responsável, com acompanhamento médico e nutricional. Acho que quem fizer uso de doping pode se arrepender das conseqüências no futuro, mas fica na consciência de cada um.

AH - Que recado você deixa para aqueles que estão iniciando no esporte e para os torcedores que te consideram um ícone do handebol brasileiro?

SB -
Acho que todo atleta tem que traçar objetivos, gostar muito e entregar-se totalmente ao esporte. É fundamental também para o atleta nunca deixar os estudos e aproveitar a oportunidade de viajar e conhecer outras culturas para obter conhecimento. É preciso ter muita força de vontade, cabeça no lugar, e principalmente humildade, o atleta precisa ser humilde para se manter no auge, do contrário a queda é muito rápida. É muito gratificante para mim ser considerado um atleta exemplar por aqueles que gostam do handebol, fico muito orgulhoso com isso!

AH - O que você acha da iniciativa de divulgar o handebol através da internet?

SB -
Acho muito interessante porque muitas pessoas procuram saber mais sobre handebol e têm dificuldades em encontrar informações, é muito válido existirem sites com o Amigos do Handebol, para que nós atletas possamos divulgar nosso trabalho, falar sobre nossa carreira e manter um contato mais estreito com os torcedores. Muitas vezes quem está iniciando, tem nos atletas da Seleção uma inspiração, e é muito importante que tenham essa oportunidade de ter um contato maior com a gente.

AH - Agradecemos muito a sua participação e esperamos vê-lo em Atenas ano que vem!


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