ENTREVISTA – TUPAN
Silvia Marques – Maio / 2003

Nome Completo: Renato Tupan Ruy
Data de Nascimento: 7 / 6 / 1979
Naturalidade: Maringá - PR
Altura: 1, 85 m
Peso: 85 kg
Posição: Ponta Direita
Clube: Imes / São Caetano - TSV Langenau (Alemanha)
AH - Onde você começou a jogar e por quais clubes passou até hoje?
Tupan - Comecei a jogar a cerca de dez anos atrás, ainda no colégio. De lá fui para o time da cidade, o Clube Olímpico de Maringá e em 97 fui para o Pinheiros, onde joguei um ano. Voltei para o Maringá em 98 e em 2000 retornei à equipe do Pinheiros, onde fiquei até o final da temporada passada. Estou agora no Imes até a metade do ano, e em Agosto vou para a Alemanha.
AH - Quando foi sua primeira convocação para a Seleção Brasileira e quais foram os principais campeonatos internacionais que você participou?
Tupan - Em 98 fui convocado para participar de um Campeonato Pan-Americano de Seleções em Havana, Cuba, já com a Seleção Adulta. Fui convocado para a Seleção Adulta antes da Júnior. Os principais campeonatos que participei foram: Mundial Júnior do Qatar 99, Mundial do Egito 99, Mundial da França 2001, Mundial de Portugal 2003, Jogos Sul-Americanos Brasil 2002 e Campeonato Pan-Americano Argentina 2002.
 Tupan em partida contra o Uruguai, durante os Jogos Sul-Americanos - 2002
AH - Como surgiu a oportunidade de jogar na Alemanha e como você acertou sua ida?
Tupan - Eu tinha a intenção de ir, terminei a faculdade de Administração ano passado e resolvi buscar essa oportunidade. O fato de já haver um jogador brasileiro lá, o Bruno, me ajudou bastante. Ele foi o meu contato lá, me hospedei na casa dele e ele deu toda a assistência para que eu conseguisse contatos nos clubes. Fui pra lá em março e fiquei até 10 de abril, nesse período fiz vários testes, treinei em alguns clubes, até que deu certo de fechar um contrato. Começo a jogar no Langenau em Agosto, depois dos Jogos Pan-Americanos.
AH - Como foi a ajuda do Bruno Souza nas negociações?
Tupan - Eu já conhecia o Bruno a algum tempo de jogar na Seleção mas não tinha muita amizade porque tínhamos pouco contato, fiquei surpreso com a receptividade dele e com toda a ajuda que me deu. Ele me levou aos lugares, falou com alguns técnicos, até para assinar o contrato ele me ajudou, traduziu o contrato pra mim, porque eu ainda não falo alemão, foi quase um empresário pra mim lá!
AH - Você não teve um empresário intermediando sua ida para a Alemanha?
Tupan - Bom, meu empresário é o Amélio, meu pai. Eu fui pra lá sozinho, mas ele pagou a viagem!
AH - A sua ida não está relacionada ao Mundial? Chegaram a te ver jogar ou a sua atuação te ajudou de alguma forma?
Tupan - Ajudou em termos de currículo, ter disputado três Mundiais com certeza conta como uma experiência importante, mas não aconteceu de terem me visto jogar em Portugal e feito um convite, não...
AH - Você deixou o Pinheiros depois de já ter algo acertado na Europa ou saiu por algum outro motivo?
Tupan - Na verdade, quando fui conversar no Pinheiros para renovar o contrato este ano falei sobre a minha intenção de ir para a Europa e eles não acharam interessante fazer um contrato de seis meses, porque o campeonato mais importante do calendário é a Liga Nacional no segundo semestre. Sendo assim, eu deixei o Pinheiros, acertei um contrato de seis meses com o São Caetano e embarquei para a Alemanha tentar a sorte. Graças a Deus deu tudo certo!
AH - Por quanto tempo você permanece na Alemanha, inicialmente?
Tupan - O contrato que fechei é de um ano, a temporada começa em agosto e termina em maio. O clube queria fechar um contrato de dois anos, mas achei melhor fazer de um ano só para o caso de, de repente, aparecerem outras oportunidades depois do final desta temporada. O Langenau é uma equipe da 3ª divisão (a liga alemã tem 7 divisões) e pode ser que apareça uma equipe melhor futuramente.
AH - Financeiramente vai ser vantajoso, você vai poder se manter bem lá nesse início?
Tupan - Financeiramente não é um contrato extraordinário, mas vai dar pra eu ficar bem... A partir de agora eu não vou mais ter despesas com praticamente nada, eles vão providenciar minha viagem pra lá, vou morar sozinho num apartamento e vou ter um salário mensal. Este contrato é a porta de entrada, vai depender agora de mim, do handebol que eu estiver mostrando para que eu possa conseguir um contrato melhor na próxima temporada. Durante esse mês que estive na Alemanha consegui também um estágio numa seguradora, também na cidade de Langenau. Vai ser muito bom poder conciliar o esporte com esse outro trabalho.
AH - Fazendo testes na Alemanha, o que você percebeu de diferente em relação à sistemática de trabalho, treinamentos, etc?
Tupan - O que é totalmente diferente é a estrutura, o apoio que os atletas têm, os clubes cuidam de tudo, o atleta só precisa se preocupar mesmo em jogar. A respeito de execução de fundamentos, de técnica, eles não fazem nada que os brasileiros não saibam fazer, mas a qualidade é superior. O engraçado é que eles treinam até menos, fazem duas horas por dia, quatro vezes por semana, enquanto aqui a gente chega a treinar três horas por dia. A diferença é que toda semana tem jogo, e são muitos adversários diferentes, o que força o jogador a melhorar seu desempenho. A liga que eu vou jogar, por exemplo, juntando todas as regiões, tem 64 times.
AH - Você é um jogador relativamente baixo para os padrões europeus, acha que será um problema?
Tupan - Na minha posição não, sou até alto para ser ponta. Mesmo na Europa, a média de altura nessa posição é em torno de 1, 80 m e não ultrapassa 1, 85 m.
AH - Como você acha que será a sua adaptação num país estrangeiro e sem falar o idioma?
Tupan - Eu sei que vai ser bem difícil no começo por causa da barreira da língua. Até quando vim do Paraná para São Paulo tive que passar por um período de adaptação. Vai ser difícil mas eu estou disposto, é o que eu quero realmente, e vou encarar!
AH - E você tem receio de se distanciar da família, deixar todos aqui no Brasil?
Tupan - Tenho muito... Sou muito apegado à minha família, meus pais, meus irmãos, tenho três irmãos homens, minha família é o meu pilar e sem eles não sei onde estaria hoje, minha vontade era de poder levar todo mundo pra lá! Estou muito feliz com o apoio que tenho recebido da minha família e dos meus amigos, recebi muito carinho de todos quando voltei da Alemanha, muitas mensagens positivas, de incentivo, todo mundo tem me dado muito apoio na realização do meu sonho e isso tem sido muito importante para mim.
AH - Como você acha que a experiência na Europa irá te fazer crescer como jogador?
Tupan - O Campeonato Alemão é considerado um dos melhores do mundo, e só de jogar com pessoas de nível técnico muito alto você acaba sendo forçado a melhorar. Pretendo adquirir bastante conhecimento lá e conseguir contribuir com a Seleção Brasileira, trazendo algumas coisas que eu aprender para os meus amigos aqui no Brasil.
AH - Você acha que mais brasileiros podem estar tendo oportunidades na Europa em breve? Considera que o último Mundial tenha mostrado a capacidade dos brasileiros?
Tupan - A primeira porta foi aberta, que é o Bruno estar estabelecido e jogando na 1ª liga alemã, ele ajuda muito, conhece muita gente. Alguns jogadores já estiveram lá antes, o Beto, o Folhas... O China também já chegou a fazer testes. Eu estando lá também estarei disposto a apoiar quem quiser tentar e espero poder ajudar alguém como fui ajudado. É difícil mas vai do sonho de cada um...
AH - Você acha que o último Mundial foi o melhor do Brasil em termos de jogar com igualdade contra os europeus?
Tupan - Nesse aspecto foi muito bom, porque nós fizemos jogos com equipes de ponta da Europa e tivemos um rendimento melhor que o esperado, não em termos de resultado porque não nos classificamos, mas os jogos foram nivelados, ficamos contentes com essa evolução. Ainda falta um degrau, que é conseguir vitórias, mas há alguns anos atrás perdíamos por uma diferença de 10, 15 gols e hoje fazemos jogos bem mais equilibrados.
 Tupan no último Mundial, marcando atacante sueco
AH - Você sofreu um golpe no Mundial que acabou até abrindo o seu supercílio. Assistindo ao jogo pela TV pareceu ter sido um lance maldoso, foi realmente?
Tupan - Aconteceu no jogo contra a Dinamarca... É difícil falar se foi um lance maldoso ou não, eu na verdade não achei, mas tem alguns lances em que você percebe que a intenção foi de machucar e outros não, parecem ter sido acidentais, é difícil de saber. Acho que foi um lance de jogo, não perguntei pra ele se foi pra machucar! Inclusive o jogador que me atingiu (não me lembro o nome dele) já havia jogado contra mim no Mundial Júnior do Qatar.
AH - Você tem algum ídolo no handebol, alguém em quem você se espelha?
Tupan - Sempre que posso, assisto jogos europeus, inclusive agora que estive lá vi vários jogos. Sou muito fã do Bruno, por tudo o que ele conquistou lá fora, agora vou sentir na pele as dificuldades que ele passou, e também admiro muito o SB, que é excelente como atleta e como pessoa. O SB se destaca não só dentro da quadra, mas também pela sua personalidade e pela sua índole.
AH - Como é a sua alimentação? Como você se cuida e mantém a forma?
Tupan - Eu tento manter uma boa alimentação... Temos a assessoria de nutricionistas, então se você estiver disposto dá para fazer um trabalho legal. Eu já usei suplementação alimentar mas hoje acho que atingi o físico ideal, então só mantenho uma boa alimentação. Alguns atletas não têm uma alimentação muito correta e complementam com suplementação, mas eu não acho certo, a boa alimentação pode suprir tudo. Eu procuro manter uma vida regrada, posso dizer que sou politicamente correto! Faz dez anos que eu jogo e nesse tempo acabei me condicionando a uma rotina. Eu gosto muito de jogar e tenho foco nos meus objetivos, então flui tudo naturalmente.
AH - Quais os seus planos para o futuro?
Tupan - Meus planos a curto prazo são participar do Pan e ir para as Olimpíadas. Pretendo também fazer uma boa temporada na Alemanha, meu grande sonho é chegar à 1ª liga.
AH - Você vai poder participar dos Jogos Pan-Americanos? Seu contrato não começa também em agosto?
Tupan - Vou sim! Apesar da pré-temporada começar em julho, no meu contrato consta que irei após os Jogos Pan-Americanos, para que eu possa treinar com a Seleção em julho e participar do campeonato. Nos clubes europeus é tudo muito profissional, tudo no papel, então não haverá problema nenhum.
AH - Você mudou a cor do seu cabelo em comemoração ou protesto a alguma coisa ou foi coincidência?
Tupan - Não foi comemoração, foi coincidência mesmo! Era uma coisa que eu queria fazer, tinha vontade de clarear um pouco a cor do meu cabelo. Foi engraçado porque eu nunca tinha entrado num salão, eu fui sozinho e pedi pra clarear um pouco o cabelo, mas acabou ficando vermelho! No mesmo dia passei em três salões diferentes até conseguir chegar numa cor melhor.
AH - Na Seleção, no Pinheiros, e agora no Imes você usa o número 7. É alguma superstição?
Tupan - É um número que eu gosto, e é o dia do meu aniversário também. Mas eu já joguei com vários números, depende muito do tempo que você tem na equipe para ter o direito de poder escolher o número da camisa. Quando eu posso, peço pra jogar com a 7.
AH - Deixe um recado para todos que te admiram e estarão torcendo por você na Europa; e também para aqueles que estão começando e assim como você têm sonhos a alcançar.
Tupan - Para quem está iniciando no esporte eu digo que se você quer, tem que treinar, "ralar" bastante, estou jogando há dez anos e sempre tive sonhos, mas nunca imaginei estar onde estou hoje, jogando na Seleção e indo para a Europa. No começo isso nunca passou pela minha cabeça, eu jogava no colégio e me divertia, só isso! Acho que é preciso sempre traçar objetivos a médio e longo prazo e acreditar, nunca desistir. Sempre aparecem problemas no caminho mas não se pode perder o foco. Espero que a galera torça muito por mim, conto com o apoio das pessoas que gostam de me ver jogar, sempre que puder vou enviar notícias e manter o pessoal daqui informado, é muito importante esse reconhecimento para mim!
AH - Agradecemos a sua participação e desejamos muita sorte nessa nova fase da sua carreira!
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