ENTREVISTA - BRUNO SOUZA

Bruno vive uma grande fase em sua carreira. Em março deste ano, foi convocado para a Seleção do Mundo e indicado pela IHF, Federação Internacional de Handebol, ao prêmio de jogador do ano. Com uma técnica apurada, versatilidade e carisma, Bruno Souza é hoje o terceiro melhor atleta de handebol do planeta e atrai a atenção do mundo para o handebol brasileiro.
Por Silvia Marques - Julho de 2004
PERFIL
Nome Completo: Bruno Bezerra de Menezes Souza
Data de Nascimento: 27 / 6 / 1977
Naturalidade: Niterói / RJ
Altura: 1, 92 m
Peso: 95 kg
Posição: Armador Esquerdo
Equipe: Frisch Auf Göppingen (Alemanha) www.frischauf-gp.de

HISTÓRIA
AH - Quando e como você começou a sua carreira e por quais clubes você já passou?
Bruno - Na verdade, eu comecei jogando voleibol. Meu pai, João Luiz, foi atleta da Seleção Brasileira de Vôlei e, me espelhando nele, comecei a praticar na escola. Meu professor na época insistia que eu deveria tentar handebol e acabei começando a jogar por acaso, aos 12 anos de idade. O primeiro clube em que joguei foi o Niterói Rugby, onde fiquei de 90 a 96. De lá fui para a Metodista, onde joguei até 99, ano em que fui para o Frisch Auf.
AH - De quais Campeonatos Mundiais você participou?
Bruno - Na categoria júnior, participei do Mundial da Argentina, em 95, e do Mundial da Turquia, em 97. Na categoria adulta, participei do Mundial do Japão, em 97, do Mundial do Egito, em 99, do Mundial da França, em 2001, e do Mundial de Portugal, em 2003.
AH - Você sempre foi um talento nato ou se transformou no jogador que é hoje através de muito treinamento, se aperfeiçoando com o tempo?
Bruno - Eu treino demais, sou viciado em treinamento! Isso ajuda, é claro, mas quanto ao dom, desde muito pequeno eu já me destacava aqui no Brasil. Desde o meu primeiro campeonato escolar tive um destaque, marquei mais de 60 gols em 5 jogos. Joguei Campeonatos Brasileiros em todas as categorias de base (infantil, cadete, infanto, enfim) e fui artilheiro e eleito melhor jogador várias vezes. Mas claro que todo atleta melhora muito através de treinamento.
AH - Como você foi descoberto pelo Frisch Auf Göppingen e como foi a sua transferência para a Alemanha?
Bruno - Um dos diretores do Frisch Auf, que é também diretor da Mercedes Benz, veio para o Brasil inaugurar a fábrica da Mercedes em Juiz de Fora e nessa viagem fez também uma visita à fábrica de São Bernardo. Ele estava à procura de um jogador de handebol e, ao saber que a Metodista era a principal equipe brasileira, foi até lá pedir informações. Ele acabou sendo levado até o Alberto Rigolo, que falou a meu respeito. Um mês depois desse contato aconteceu o Mundial do Egito, em que o Brasil jogou contra a Alemanha. Eu joguei muito bem aquela partida, marquei 9 gols, e o jogo foi transmitido ao vivo na Alemanha. Depois disso, esse diretor voltou a entrar em contato e me enviou duas passagens para a Alemanha. Convidei o Alberto para ir comigo, pois havia sido justamente ele o primeiro a me indicar, fomos até lá e deu tudo certo!
 Em 1998, quando jogava na Metodista. Da esq. para a dir. : Baldacin, Bruno, Léo e Tupan (foto: Arquivo Metodista/São Bernardo)
O ATLETA
AH - Qual você considera ser sua maior qualidade como atleta?
Bruno - Disciplina, sou muito disciplinado nos treinamentos. E também não tenho medo de errar, tenho uma vontade muito grande de vencer e de representar bem as pessoas que eu sei que estou representando, o handebol do Brasil, os jogadores brasileiros e assim vai...
AH - Você é um jogador que recebe marcação individual quase sempre. Você acha que isso realmente dá resultado para o adversário? Já aprendeu a lidar com isso e se livrar dessa marcação?
Bruno - Desde as categorias de base eu jogo com essa marcação individual. Eu costumo dizer que o mais importante é que os outros jogadores não fiquem dependentes de mim nesse momento. Se estivermos jogando cinco contra cinco, os jogadores que estiverem no ataque terão mais espaço, se tivermos jogadores que possam ter a tomada de decisão certa, na hora certa, e estarem decidindo o jogo, o adversário passa a não ter vantagem nenhuma porque a sua defesa fica muito mais exposta. Mas eu já aprendi a lidar com isso, tive que aprender porque há muitos anos eu sofro essa marcação.
AH - Em que você se modificou, como jogador, depois de sua ida para a Alemanha?
Bruno - Mudei bastante nesses anos... Todo mundo me dizia que eu precisava ter mais postura de armador, sempre olhando para o alto, sempre procurando o pivô, e como eu sou muito veloz de finta, de um contra um, tive também que aprender a ser veloz na hora certa. Se você joga o tempo inteiro 100%, no final, você vai acabar conseguindo ser 70, 80%. Então é melhor você ser 60% e, na hora de decidir a jogada, conseguir imprimir algo próximo de 100% do seu potencial. Eu jogava numa velocidade muito alta o tempo todo, e, no decorrer do jogo, minha média acabava caindo. Agora, jogando mais tranqüilo, entendendo melhor o jogo, consigo ser mais agressivo e mais eficiente na hora certa.
AH - Você alguma vez já passou por alguma contusão que te tirou das quadras muito tempo ou colocou em dúvida o seu futuro no esporte?
Bruno - Não, nenhuma muito grave... Eu só sofri um acidente de carro, em 93, que me deixou três meses sem treinar. Tive um desvio de vértebra e os médicos diziam que eu não poderia mais jogar, que não poderia mais sofrer impacto na região. Mas depois me recuperei, a vértebra voltou ao normal, e os exames mostraram que eu poderia voltar a jogar e a tomar pancada. A partir daí passei a ser um jogador bem mais agressivo, sou um jogador que gosta de um contra um e que apanho bastante também!
 Bruno encara a marcação dos adversários
VIDA NA ALEMANHA
AH - Como foi o seu início da Europa, a sua adaptação?
Bruno - Foi bem difícil. Com relação ao handebol foi até muito tranqüilo, cheguei com muita vontade, treinando muito, o mais difícil foi realmente a vida pessoal, me sentia muito sozinho. Tive também que me adaptar ao inverno rigoroso, moro no sul da Alemanha, próximo dos Alpes Suíços, e o inverno é de - 15°C, com muita neve. Agora eu estou bem, tenho muitos amigos lá, tenho uma namorada alemã e estou muito feliz.
AH - Os jogadores alemães te respeitaram desde o início, ou você foi subestimado por vir de um país sem tradição no handebol?
Bruno - Foi muito engraçado, quando eles souberam que estava chegando um brasileiro, ninguém nem acreditou! Mas logo nos primeiros treinamentos, nos primeiros jogos, já passaram a me respeitar muito, a me aceitar muito bem e a entender o meu estilo de jogo. Eu também me adaptei facilmente aos treinos e estava sempre buscando jogar muito bem, fazer gols e alcançar resultados, dessa forma consegui ser respeitado rapidamente e da maneira mais correta. Também me respeitaram desde o início por eu ter participado de Campeonatos Mundiais, isso é muito importante para eles, ter jogado pela Seleção, contra equipes fortes.
AH - A cidade de Göppingen é relativamente pequena, com cerca de 80 mil habitantes. Você tem status de estrela na cidade, é muito assediado e reconhecido pelas pessoas?
Bruno - Muito, é bem difícil às vezes fazer coisas simples, como ir ao supermercado ou jantar com a namorada, ela até reclama que não dá para jantar em lugar nenhum sem que apareça alguém pedindo autógrafo! Tenho que me acostumar e conviver com isso, os fãs normalmente são muito educados, mas alguns passam dos limites e às vezes tenho até que pedir que me deixem viver a minha vida pessoal. As pessoas me reconhecem bastante, acontece até de às vezes não quererem me deixar pagar a conta em restaurantes ou lojas!
 Em Göppingen, durante a abertura da temporada 2003/2004
FRISCH AUF GÖPPINGEN
AH - Dizem que você foi o principal responsável pelo Frisch Auf ter ido para a 1ª Liga Alemã. É verdade?
Bruno - É... O Frisch Auf estava há 12 anos na 2ª divisão, e, no ano em que a gente subiu, eu fui o melhor jogador e artilheiro da 2ª divisão. Eu fui um dos maiores responsáveis, mas não "o responsável". O mérito é do time todo, principalmente do técnico, por ter conseguido fazer a equipe se concentrar até o último minuto, tanto que fomos campeões da 2ª divisão com três rodadas de antecedência. Fui um dos responsáveis, dizem que com grande parcela em alguns jogos, mas eu gosto de dividir tudo.
AH - Como é a sua rotina de treinos lá?
Bruno - Na pré-temporada, treinamos diariamente durante um mês e meio, duas vezes ao dia. Durante a liga, de setembro a maio, treinamos um período na segunda-feira, dois períodos na terça e na quarta, e um período na quinta e na sexta. Sábado temos jogo e domingo fazemos algum tipo de treinamento físico. Às vezes essa rotina muda porque em algumas épocas jogamos às quartas e sábados. Mas treinamos todos os dias, sem folga, mesmo que seja só uma corrida. A rotina é voltada totalmente ao treinamento, quase todos os jogadores na 1ª divisão são profissionais, e quando não estamos na quadra, estamos na academia ou na fisioterapia.
AH - Quais foram as suas principais conquistas individuais pelo Frisch Auf, ao longo dessas cinco temporadas?
Bruno - Em 99, fui vice-artilheiro da 2ª divisão. Em 2000, fui artilheiro e melhor jogador da 2ª divisão. Em 2001, nosso primeiro ano na 1ª divisão, fui vice-artilheiro da liga com 180 gols, o que foi uma surpresa por se tratar de uma equipe que tinha acabado de subir e de um estrangeiro do Brasil! Em 2002, 2003 e 2004 fui para o All-Star Game (jogo amistoso entre os jogadores eleitos os melhores em suas posições pelos torcedores).
AH - E como foi a sua temporada 2003-2004 no clube?
Bruno - Foi bem, mas, na verdade, não foi o meu melhor ano. O meu início de temporada, em agosto de 2003, foi bom, eu tinha acabado de ganhar o Pan com a Seleção e tinha voltado para a Europa com essa força. Mas, ao longo da temporada, o clube não fez uma campanha boa, teve vários jogadores lesionados, e eu também fiquei um pouco abaixo da minha média em jogos importantes. Em algumas partidas, nas quais eu havia marcado 7, 8 gols no ano anterior, acabei fazendo 5 ou 6 gols, e começaram a pegar um pouco no meu pé por causa disso. Mas a pressão maior aconteceu porque, no meio da temporada, eu recebi uma proposta do Flensburg, que estava na 1ª colocação na tabela naquele momento e acabou sendo o campeão alemão este ano. Essa proposta foi noticiada na TV e tudo mais, e o Frisch Auf estava em um dos últimos lugares na tabela. A torcida ficou um pouco ressentida com isso e quando acontecia de eu ficar abaixo da minha média de 7, 8 gols achavam que era porque eu estava querendo sair, o que não era verdade, já que o meu contrato vence no final da temporada que vem e não considero viável deixar o clube antes disso porque envolve multa, etc. Por tudo isso, acho que acabei não jogando tão bem quanto deveria, apesar de ter terminado a temporada com boas estatísticas.
AH - Você foi novamente o artilheiro da sua equipe este ano?
Bruno - Sim, terminei a liga com 160 gols.
 Em ação pelo Frisch Auf Göppingen
ENTRE OS MELHORES DO MUNDO
AH - Este último ano vem sendo marcado por muitas conquistas para você...
Bruno - Ah, sim! Este ano aconteceram várias conquistas pessoais, eu fui convocado para a Seleção do Mundo, fui novamente para o All-Star Game e fui artilheiro com 8 gols, fui indicado pela Federação Internacional para a eleição de melhor do mundo e acabei ficando em terceiro... Pessoalmente foi um ano muito bom mesmo, mas para o Frisch Auf foi um ano muito estressante porque, com vários jogadores lesionados, acabamos ficando quase numa situação de rebaixamento. Somente no final da temporada nos recuperamos e conseguimos terminar o campeonato no 13º lugar entre 18 times.
AH - E, apesar de ter outras propostas, você está confirmado na equipe para a temporada 2004-2005?
Bruno - Vou continuar lá sim, tenho mais um ano de contrato. Mas, no final da temporada, com o fim desse contrato, eu acho que há uns 80% de chance de eu deixar a equipe para ir para um time bem mais forte, um dos cinco primeiros da Alemanha.
AH - Você já recebeu proposta do Kiel, heptacampeão alemão, certo?
Bruno - Recebi, mas a proposta mais recente não foi a do Kiel, foi a do Flensburg, que estava procurando armador porque o armador esquerdo deles foi para o Barcelona. Mas além destes há outros clubes com interesse em me levar. Eu tenho mantido contato com o Lemgo, campeão ano passado e vice-campeão este ano, que também está procurando armador esquerdo. Eu acredito que deva dar certo a minha transferência para um desses times.
AH - Sobre o jogo com a Seleção do Mundo... Como foi essa experiência inédita para você?
Bruno - Foi demais! Muito maneiro... Foi o último jogo do Daniel Constantini, um dos melhores técnicos do mundo, respeitadíssimo, e que já foi campeão mundial com a França em 95 e 2001. Ele chegou no vestiário antes do jogo e disse que nunca imaginaria na vida dele que pudesse ter jogadores tão diferentes e tão bons juntos, que não esperava que sua carreira fosse se expandir a ponto de dirigir uma Seleção dessas, com jogadores da Alemanha, da França, da Rússia, do Brasil, enfim. Eu fiquei pensando naquilo e, se um cara que é um dos melhores técnicos do mundo teve um prazer incrível em estar ali, imagina eu, que sou de um país que não tem tradição no handebol, estar ali numa Seleção do Mundo! Foi muito fácil, muito legal jogar, e fui muito respeitado por estar ali, fui tratado de igual para igual pelas grandes estrelas.
AH - E como você recebeu a notícia de que havia sido apontado como um dos dez melhores jogadores do mundo pela IHF?
Bruno -Logo de cara eu não acreditei, não! Mas depois, quando eu analisei, até mesmo durante esse jogo da Seleção do Mundo, eu percebi que estava mesmo fazendo parte de uma elite do handebol. Já é a minha quarta temporada na 1ª divisão alemã, o quarto ano que eu vou para o All-Star Game... Eu acho que começaram a prestar atenção em mim por eu ter um estilo de jogo muito diferente, apresento uma escola de handebol diferente.
AH - E você já percebe os europeus seguindo o seu jeito de jogar?
Bruno - Percebo... O meu estilo de jogo já vem sendo seguido pelas novas gerações, percebo essa identificação e os europeus mudando algumas características. Alguns jogadores que não são tão grandes, mas são ágeis, como eu, têm adotado algumas dessas minhas características.
 Após sua atuação de destaque no Pan, Bruno recebeu o Prêmio Brasil Olímpico, concedido pelo COB aos melhores atletas do ano em cada modalidade (Foto: COB)
RUMO A ATENAS
AH - Agora, falando de Seleção Brasileira: Você está já está treinando para as Olimpíadas com a equipe e já participou de amistosos. O que está achando do atual momento do handebol brasileiro e das possibilidades em Atenas?
Bruno - Quanto à Seleção, o trabalho está sendo feito, ainda não estamos como estávamos no Pan, mas ainda faltam 30 dias. No Pan, tínhamos um foco, que era vencer a Argentina e buscar o ouro, agora, estamos ainda um pouco sem foco. Eu só acho que os amistosos que fizemos não estão dentro da realidade que vamos encontrar em Atenas, não dizem o real tamanho do handebol brasileiro em relação ao mundo. Nós já deveríamos estar na Europa, fazendo mais amistosos... Porque contra a Alemanha ou contra a França, se você errar, vai tomar um contra-ataque e tomar um gol. Cada gol que você não faz, vai sofrer um com certeza. Mas estamos nos preparando dentro do que está sendo possível, acho que os amistosos que fizemos serviram para criarmos um pouco mais de jogo, o pessoal ficou muito tempo treinando físico, então esses jogos foram bons para dar entrosamento e ritmo para a equipe.
AH - O que falta para o handebol brasileiro poder enfrentar as grandes equipes do mundo com o objetivo de vencer, e não apenas fazer bons jogos?
Bruno - Falta mesmo mais intercâmbio, tanto amistosos quanto os próprios jogadores irem jogar fora do país para ficarem mais à vontade quando tiverem que jogar contra equipes fortes em Olimpíadas ou Mundiais.
AH - E você acha que o Brasil pode beliscar uma vitória contra quem em Atenas?
Bruno - Eu estava pensando muito na Grécia, mas depois que vi a preparação da equipe na Europa... Dos países que estão indo, é o que mais se preparou. A Grécia tem uma Seleção Permanente, como a nossa, e está fazendo uma série de 40 amistosos internacionais desde janeiro. Eles recentemente ganharam da Islândia, da Suíça, e fizeram um jogo duro contra a Alemanha, perderam por 5 gols... A Grécia era um adversário com quem estávamos meio que contando, mas vai ser bastante difícil porque está sem dúvida com mais ritmo de jogo que o Brasil. Mas os nossos adversários serão realmente Grécia e Egito. Já Alemanha, França e Hungria, que acho que pode ser a grande surpresa dessa competição, são muito mais fortes e estruturados.
AH - Qual é a principal diferença do handebol europeu para o handebol brasileiro, dentro de quadra?
Bruno - Os europeus são muito mais fortes fisicamente que os brasileiros. No Brasil, jogamos com velocidade, o que ainda provoca muitos erros de fundamento, erramos muitas coisas básicas, todos na Seleção Brasileira jogam muito bem, só falta um pouco de paciência e tranqüilidade para mostrarem tudo o que podem. Na Europa o coletivo é importante o tempo inteiro, vários times têm muitas estrelas, mas as estrelas não ganham o jogo sozinhas, então a prioridade é para o coletivo. Os jogadores lá têm também a tranqüilidade de só jogar handebol, aqui no Brasil os jogadores têm outras preocupações fora da quadra que acabam prejudicando, a estrutura que se tem na Europa melhora o rendimento e o psicológico dos jogadores.
AH - Na sua opinião, quais são as qualidades do jogador brasileiro que devem ser exploradas?
Bruno - O brasileiro é muito criativo, de ter idéias, criar jogadas, e é muito rápido. O europeu é metódico, faz tudo certo. Então, acho que um tem que aprender com o outro. Mas essa criatividade e velocidade podem virar um pouco de afobação, fazemos tudo muito rápido e às vezes somos indisciplinados. Em certos jogos você não pode ser indisciplinado, é melhor ser metódico como o alemão e manter a regularidade.
AH - Sobre o Campeonato Pan-Americano, que a equipe está prestes a disputar no Chile: Sem Cuba e com a Argentina desintegrada, o Brasil vai apenas buscar a medalha?
Bruno - Eu acredito que o Brasil tem totais condições de ganhar esse Pan-Americano, e, se preparando para as Olimpíadas, não tem que pensar em outra coisa a não ser ganhar mesmo! Mas, caso não aconteça, caso a gente tropece na Argentina ou alguma coisa assim, que isso não abale as nossas estruturas para as Olimpíadas. Eu acho que pelos times que estão indo temos a obrigação de ganhar, mas o nosso foco maior tem que continuar sendo Atenas.
 Durante o amistoso preparatório para as Olimpíadas realizado em São Bernardo do Campo (Foto: CBHb)
FUTURO
AH - Com tudo que você já conquistou, já se sente totalmente realizado? Ainda falta alguma coisa?
Bruno - Falta! Para começar, preciso procurar permanecer na elite do handebol, continuar jogando bem, evoluindo e me fortalecendo psicologicamente. Eu acho que até já estou conseguindo me tornar um cara mais tranqüilo, estou jogando com mais calma, fazendo uma leitura bem melhor do jogo. Eu sou realizado com o meu trabalho, com a minha vida pessoal, mas é lógico que sempre falta alguma coisa. Eu não sou um cara ambicioso, não preciso de uma casa ou um carro melhor, mas, em termos de handebol, de esporte, falta muita coisa. Eu ainda não sou realizado com o handebol que jogo hoje, eu preciso defender melhor e me preparar mais fisicamente e psicologicamente. Por exemplo, eu não defendo, mas não porque não sei defender bem, mas porque, se defendo, fico muito cansado para atacar e quando chega o momento de fazer o gol posso acabar estando muito cansado para fazer. Então, acaba sendo melhor colocar um especialista defensivo para que eu possa realizar bem a minha tarefa no ataque.
AH - Você havia dito ano passado que o seu time gostaria que você permanecesse lá por muitos anos, mas, que você mesmo não sabia se teria uma carreira longa, que poderia de repente decidir parar de jogar e ir surfar na Austrália. Ainda pensa assim?
Bruno - Eu acho que estou mais centrado hoje... Eu falava isso porque nunca pensava em ser profissional e chegar à elite do esporte. Agora, eu já vejo as coisas com outra perspectiva, já imagino que, se eu conseguir manter a minha carreira direitinho, não me machucar e jogar bem até de repente uns 34, 35 anos, posso ficar bem, garantir o meu futuro, e aí sim terei todo o tempo do mundo para viajar para a Austrália, para o nordeste brasileiro, surfar, mergulhar, escalar... Hoje sou mais conservador, mais disciplinado e até mais caseiro.
AH - Tudo que aconteceu este ano, a Seleção do Mundo, o terceiro lugar no Player of The Year, influenciou você?
Bruno - Influenciou, porque me mostrou que eu estou fazendo a coisa certa. Eu sempre fui muito espontâneo, mas de uns tempos para cá me adaptei à vida na Alemanha, com o jeito organizado dos alemães, e hoje estou organizando a minha vida bem melhor do que há um ano atrás.
AH - Você tem preferência em permanecer na Alemanha ou pretende de repente experimentar alguma outra escola?
Bruno - Eu acho que o ideal para mim seria ficar mais um tempo na Alemanha, porque agora estou completamente adaptado e tenho o objetivo de jogar em um time com o qual eu possa ter a perspectiva de ser campeão. Eu acho que já está na hora de eu começar a jogar pra ser campeão, ir para o Campeonato Europeu e tudo mais.
 Emoção na conquista da vaga olímpica (Foto: COB)
MENSAGEM
AH - O que você diria para o atleta que está iniciando no handebol e acha que para atingir o alto rendimento é necessário o uso de doping?
Bruno - Não vale a pena, porque o doping vai ser uma coisa temporária na sua vida, vai te jogar para o alto, vai te proporcionar um rendimento ilusório, que não é seu normalmente, e depois vai te trazer o dobro de problemas do que trouxe de "soluções". Eu sou um lutador pelo treinamento, cada um tem seus limites, mas você tem que procurar atingir o seu máximo através de treinamento, sem depender de nenhuma substância.
AH - Para finalizar, deixe o seu recado para a torcida que estará acompanhando o Brasil nos Jogos Olímpicos e para o pessoal que está começando no handebol e tem você como ídolo.
Bruno - Este grupo está junto já há bastante tempo, desde Seleção Júnior, e felizmente conseguimos esse feito inédito de classificar o Brasil para as Olimpíadas. Vamos lá para descobrir o tamanho real do Brasil hoje em relação ao mundo e esperar um bom resultado. O meu recado para as pessoas que estão começando a jogar handebol no Brasil é que treinem muito mais e tentem de qualquer maneira possível, vídeo, internet, enfim, se aproximar do handebol europeu para poderem ter noção de como o handebol é grande na Europa e poderem também ter a meta de superar essa geração. Se a nossa geração já é vitoriosa, as próximas têm que ser ainda melhores, pois estamos apenas abrindo as portas para as gerações futuras.
AH - Muito obrigado pela entrevista e, em nome dos torcedores de todo o Brasil, parabéns pelo reconhecimento internacional e por representar tão bem o Brasil no exterior!

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