FALTA DE ESTRUTURA COMPROMETE PREPARAÇÃO PARA ATENAS

Silvia Marques - 24/05/2004

Gostaria de não ter que escrever esta coluna. Assim como todos que têm acompanhado o trabalho das Seleções Brasileiras nos últimos anos, acreditei que a conquista do ouro Pan-Americano daria início a um novo capítulo no handebol brasileiro. Um capítulo em que a falta de estrutura e a improvisação passariam a dar espaço ao reconhecimento e apoio aos atletas e técnicos que tanto têm feito pelo esporte brasileiro.

O ouro em Santo Domingo deveria ser a virada de mesa do handebol. Depois dele, tudo seria diferente, certo? Errado. Nossos campeões e campeãs, que dedicaram quinze, vinte anos de suas vidas ao handebol sem jamais terem contado com o devido reconhecimento, continuam sem o apoio e a estrutura que merecem. Mesmo admirando e respeitando o trabalho do Prof. Manoel Luiz de Oliveira e de toda a Confederação Brasileira de Handebol, não podemos fechar os olhos para algumas falhas que têm ocorrido na preparação das Seleções para as Olimpíadas. Essas falhas podem custar caro ao handebol brasileiro e a Confederação precisa ficar atenta a elas enquanto ainda é tempo.

No início deste ano, durante o anúncio das convocações e dos cronogramas de treinos das Seleções, o técnico Alberto Rigolo declarou que o objetivo da Seleção Masculina em Atenas seria se classificar para a 2ª fase, ficando entre as oito melhores da competição. Alexandre Schneider, treinador da Seleção Feminina, afirmou que sua equipe tentaria a quinta ou sexta colocação. Ambos fizeram suas projeções tendo em mente a programação oficial que havia sido planejada pela CBHb.

Mas essa programação, desde abril, tem ficado no papel. A equipe masculina, a essa altura, já deveria ter recebido equipes européias para amistosos e realizado uma excursão para a Europa, de acordo com o cronograma. Ao invés disso, realizou uma fase de treinos no Guarujá e uma em Minas Gerais, e está sem jogar desde os amistosos contra a Argentina, em março. Por outro lado, o time feminino realizou apenas uma das duas séries de amistosos que estavam programadas.

E por que esses amistosos são tão importantes? Simplesmente porque os atletas estão sem jogar efetivamente desde dezembro e precisam desses amistosos para manter o ritmo de jogo, adquirir entrosamento e se colocar à prova contra adversários fortes. Tomara que a Confederação não esteja considerando os playoffs do Campeonato Paulista proveitosos na preparação para as Olimpíadas, porque não serão. Os atletas não aprenderão nada nesses jogos, uma vez que os adversários são sempre os mesmos e os atletas de Seleção jogam entre si. Outro ponto importante: não adianta trazer adversários fracos, como a Seleção Feminina do Uruguai, que as brasileiras venceram sem o menor esforço (por 36 x 11, 32 x 12, 37 x 13 e 40 x 5). O Brasil precisa jogar contra equipes de ponta para se tornar uma delas.

E há ainda outras falhas. A Seleção Masculina, por exemplo, tem enfrentado alguns problemas de estrutura. Parece mentira, mas a melhor equipe de handebol das Américas permaneceu concentrada em um alojamento montado em um colégio de Belo Horizonte. As condições do alojamento, mesmo sendo boas, não se comparam às de um hotel. E este não é o primeiro imprevisto que a equipe enfrenta. Intermináveis horas de viagem de ônibus e acomodações ruins já fazem parte da dura rotina dos atletas e da comissão técnica rumo às Olimpíadas. A Confederação e os patrocinadores, que infelizmente ainda não podem proporcionar um retorno financeiro significativo para os atletas das Seleções Olímpicas, têm o dever de pelo menos oferecer conforto e condições para que eles representem o Brasil da melhor maneira possível em Atenas.

Os locais dos treinos das Seleções estão sendo decididos mediante as condições oferecidas pelas cidades interessadas em receber a equipe. O motivo para isso seria a falta de recursos por parte da Confederação para bancar hotel, alimentação e todos os encargos necessários para manter as concentrações. Sendo assim, a solução é buscar patrocínio para os treinos. Teoricamente é uma solução interessante, pois reduz os gastos e amplia a divulgação da modalidade pelo país, mas, na prática, traz alguns transtornos.

Viagens desgastantes e destinos definidos na última hora são alguns desses inconvenientes. Mas o pior deles é que as equipes acabam tendo que realizar programações voltadas aos interesses do patrocinador. Estamos em um ano eleitoral, e, como diz um ditado norte-americano, "there's no such thing as a free lunch" (não existe almoço de graça), ou seja, há sempre um preço alto escondido por trás de tudo que parece ser de graça. O que quero dizer é que por trás da benevolência das autoridades que recebem as Seleções de braços abertos, arcando com boa parte dos custos, há uma agenda política. Isso ficou mais do que claro semana passada, em Belo Horizonte. A equipe masculina teve que se dividir entre os treinos e visitas a projetos sociais, encontros com o Secretário de Esportes do Estado e com a diretoria do Ginásio Marista Hall, entre outros compromissos. A imagem dos atletas foi explorada ao máximo.

É de extrema importância a divulgação dos projetos sociais envolvendo o esporte. Com certeza a presença dos atletas da Seleção é um grande estímulo para as crianças e jovens carentes que jogam handebol, mas o momento agora é de preparação para as Olimpíadas e esse tipo de programação, por mais nobre que seja a causa, deveria ficar para uma outra oportunidade. Os horários em que os atletas deveriam estar descansando entre um treino e outro (para manterem um bom desempenho, não sofrerem fraturas por estresse, etc) foram os escolhidos para esses compromissos. Por coincidência ou não, quatro atletas se contundiram em Belo Horizonte, entre eles Sidney, que está fora das Olimpíadas após romper o ligamento cruzado anterior do joelho direito.

Não fosse o bastante ir para as Olimpíadas com uma preparação conturbada, a Seleção Masculina terá ainda outro desafio: conquistar uma das três vagas para o Mundial de 2005 que estarão em jogo no Campeonato Pan-Americano, que acontece em julho, no Chile. O Brasil enfrentará as fortes equipes da Argentina, Cuba e Groelândia na competição. Nossa Seleção não deve ter problemas em ficar entre as três melhores, mas possivelmente disputará mais uma decisão contra a Argentina, que estará, mais que nunca, com sede de vitória. Para eles, derrotar o Brasil é uma questão de honra, para provar que a conquista do Pan não foi por méritos, e sim sorte do adversário. Para nós, confirmar a hegemonia das Américas é uma injeção de ânimo para impulsionar a ida para Atenas. Perder o Pan-Americano logicamente abalaria muito a auto-estima da equipe.

Altamente desgastada e sem ritmo de jogo: é assim que está a Seleção neste momento. E o tempo está passando, estamos a pouco mais de um mês da estréia da equipe no Pan-Americano. Até lá, estão programadas viagens para Maringá, São Luís e Aracaju. Por outro lado, nenhuma série de amistosos foi anunciada. Nem é preciso dizer que esse excesso de viagens, e falta de jogos, pode prejudicar muito o desempenho do Brasil.

Muitas pessoas questionam o porquê da Confederação não ter condições de bancar os treinos das Seleções, já que conta com o patrocínio da Petrobras e da Penalty. Justiça seja feita: o patrocínio da Petrobras não é tão significativo quanto muitos pensam. O valor que foi fechado em junho de 2003 é de 1,3 milhão de reais ao longo de um ano, ou seja, pouco mais de 100 mil por mês, a ser dividido entre todas as categorias. Parte do patrocínio está sendo destinada para o pagamento de uma ajuda de custo aos atletas e comissões técnicas das Seleções Olímpicas. O restante vai para as Seleções Júnior, de handbeach e assim por diante. Já a Penalty patrocina a CBHb através do fornecimento de material esportivo, e não financeiramente.

Mas e os recursos da Lei Piva? Aí está uma boa pergunta. Em outubro de 2003, devido ao resultado no Pan, o handebol teve a sua participação na verba (que corresponde a 2% da arrecadação bruta das loterias federais) aumentada. O presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, afirmou na época que o handebol era a menina dos olhos do Comitê e um dos grandes potenciais do Brasil para um futuro próximo.

A Confederação Brasileira é quem define a distribuição dos recursos entre as várias categorias e Seleções. No início do ano, foi anunciado o lançamento de projetos visando a descoberta de novos talentos e a participação do Brasil no Pan de 2007 e nas Olimpíadas de 2008 e 2012. Os projetos são muito bons, mas o momento não é o ideal. O momento agora é de se voltar toda a atenção e o máximo possível de recursos para as Seleções Adultas, pois um resultado positivo nas Olimpíadas atrairá maior divulgação e patrocínio, e aí sim será possível investir em categorias de base e pensar em 2007, 2008, 2012, enfim... O resultado do Brasil em Atenas será o alicerce para as próximas gerações.

A preparação do Brasil para as os Jogos Olímpicos precisa ser repensada - e melhorada - com urgência pela Confederação, ou será realmente muito difícil para as equipes atingirem as colocações pretendidas. As comissões técnicas e os atletas estão trabalhando com muito afinco em busca de um bom resultado em Atenas, mas serão duramente cobrados e criticados se não atuarem bem. No entanto, tendo em vista o não cumprimento do cronograma de treinamentos e a falta de estrutura, não devemos esperar por milagres.