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O MERCADO DO HANDEBOL
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Tarcius Guedes - 30/07/2004
Caros Amigos,
Em 19/11/2003 a revista VEJA divulgou a seguinte nota:
"A vez do handebol: A Petrobras quer transformar o handebol (futebol jogado com as mãos) num esporte popular e campeão - e, claro, associar seu nome a essa onda. Quer fazer algo semelhante ao que o Banco do Brasil faz com o vôlei. A partir de 2004, a estatal vai investir 18 milhões de reais por ano no handebol. É dez vezes mais do que gastou neste ano. "
Essa notícia foi um grande choque, pois o site oficial do COB havia divulgado que a Confederação só receberia 1,3 milhão entre 2003 e 2004. Naquele momento, pensei que havia sido um engano da revista, porém, verifiquei o site da Petrobras e vi o mesmo valor. O que me passou pela cabeça foi: "eles estão querendo nos enganar!" Mas, pensando melhor, talvez esse valor não esteja tão errado, e sabem por que? Porque a Petrobras possivelmente esteja gastando os outros 17 milhões vinculando propagandas na mídia. Tenho visto propagandas da Petrobras sobre o handebol em jornais, revistas e TV. Tenho visto o comercial do handebol no horário nobre quase todos os dias na Band. E quanto mais as Olimpíadas se aproximam, mais numerosos são os anúncios.
É claro que a iniciativa da Petrobras em patrocinar e divulgar o handebol é extremamente positiva. Mas não seria mais proveitoso se uma parte maior da verba fosse investida na modalidade em si? Será que, se a Petrobras bancasse treinamentos na Europa, que segundo o presidente Manoel Luiz de Oliveira não puderam acontecer antes por falta de verba, os resultados não trariam uma repercussão maior? A Petrobras não ganharia muito mais se vinculasse sua imagem a uma equipe medalhista olímpica?
Mas, de qualquer forma, ver comerciais na TV sobre handebol é muito bom. Não estaríamos vendo programas como o Jornal do Handebol semanalmente na ESPN Brasil, jogos ao vivo na Rede TV, ou uma reportagem sobre Bruno Souza no Jornal Nacional, se não houvesse a verba de empresas como a Petrobras. Estamos caminhando na direção certa, mas poderíamos acelerar este processo. As federações precisam se reciclar e promover eventos mais atrativos. Os treinadores precisam adquirir uma nova consciência, pensar no espetáculo, no público, nos aspectos que transcendem o jogo. Os amantes do handebol precisam também aparecer, enviando e-mails para a Penalty, pedindo para ver a camisa da Seleção Brasileira nas lojas, para a Olympicus e para a Adidas, pedindo mais variedade de produtos para handebol, para as redes de TV, dando repercussão para as transmissões e pedindo mais espaço para a modalidade.O torcedor tem papel fundamental, pois é o consumidor em potencial das empresas que se associam ao esporte, portanto, deve marcar presença sempre para incentivar esses investidores.
A Penalty, fornecedora de material esportivo para a Confederação por 14 anos, somente agora está investindo em propaganda especifica para o handebol. Durante as transmissões dos amistosos entre Brasil e Argentina e Brasil e Chile, na Rede TV, aconteceu uma cena rara... Não estou falando da vitória brasileira ou de algum lance espetacular, estou falando do intervalo da partida. Em 12 anos acompanhando o handebol, eu nunca havia tinha visto tantas empresas associando suas marcas ao handebol. Havia propaganda da Petrobras, Penalty, Correios, entre outras. Isso é uma grande evolução. Cansei de ver jogos na ESPN Brasil em que não havia sequer um patrocinador.
A propósito, é preciso reconhecer que a ESPN Brasil prestou um serviço essencial ao handebol, que, na prática, foi quase uma caridade, fato incomum na mídia brasileira. A Rede Globo faz, hipocritamente, grandes reportagens protestando contra os empresários brasileiros que não patrocinam os esportes olímpicos, mas quando Daniele Hipólito foi ao programa do Jô Soares... Pediram para que ela tirasse o boné do patrocinador. A ESPN Brasil deve ser sempre lembrada como pioneira em mídia esportiva e exemplo de imparcialidade e democracia.
O Brasil é o país do futebol e podemos ver, nas noites de domingo, de 3 a 5 canais mostrando futebol na TV aberta. Você deve estar pensando: "é por causa do ibope". Entretanto, pense um pouco mais, por que o surf e outros esportes radicais recebem tanto espaço na mídia? Se compararmos com outras modalidades, como basquete e handebol, o surf tem bem menos praticantes. Qual é a grande diferença? A diferença está no mercado. O surf possui patrocinadores de peso. Existe a surfwear, a surfmusic, enfim, uma gama de produtos destinados a esse público. O entretenimento ligado ao esporte movimenta a economia e cria um mercado consumidor forte, que muitas vezes nem pratica o surf, mas consome as roupas, as músicas e vários outros produtos associados ao surf. Portanto, não é apenas o ibope que faz a mídia ter tantos programas sobre futebol ou esportes radicais, a verdade é que quando uma modalidade atinge status de estilo de vida entre os consumidores, os programas se tornam grandes negócios. Marcas de cerveja, de refrigerante ou bancos, pagam o programa.
O esporte olímpico brasileiro precisa aprender a estimular o mercado se quiser crescer. Temos que parar com essa ingenuidade de achar que algum empresário vai investir no esporte por caridade. Os empresários querem conquistar novos mercados, também têm interesse no crescimento do esporte olímpico, mas é preciso mostrar bons projetos, trabalho sério e provar que há demanda no mercado. Muitas vezes este mercado é bastante sólido, apenas indevidamente explorado. Por exemplo, você sabe qual é o modelo de tênis indoor mais vendido no Brasil? Não é um tênis para basquete ou vôlei, é o Adidas Stabil, feito para handebol. E a Adidas não patrocina nenhum evento de handebol no Brasil. Se o fizesse, teria uma fatia muito maior desse mercado que não pára de crescer e sofre com escassez de produtos.
O mercado existe, mas os nossos empresários ainda estão presos ao futebol. A Penalty e a Olympicus, por exemplo, perceberam que estavam perdendo um importante espaço e criaram os tênis indoor especiais para handebol. Eu, quando jogava todo dia, gastava dois tênis por ano e, na época, tínhamos que jogar com tênis improvisados. A demanda era grande, mas as opções poucas e o preço altíssimo. Hoje, com mais modelos chegando às lojas, os preços tendem a cair, provocando, conseqüentemente, um estímulo ao consumo e à prática do esporte, o que irá gerar mais mercado, aumentar novamente o consumo, ampliar o investimento das empresas do setor e assim por diante. É assim que se inicia o tão falado círculo virtuoso da microeconomia do handebol. Este exemplo se refere apenas a tênis, mas você sabe quantas pessoas querem comprar uma camisa da Seleção? Ou do time da Metodista, do Imes São Caetano ou Unifil Londrina? É este o mercado que precisa ser estrategicamente estimulado, precisamos ter algumas aulas com os americanos, que sabem unir esporte, entretenimento e consumo muito bem. Sabem usar o marketing esportivo e estimular o mercado consumidor. Este é o caminho para o crescimento do handebol.
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